Opinião

Linhas vermelhas

É uma crise de saúde sem precedentes. Ninguém pode ter dúvidas sobre isso. O pico da terceira vaga pode até já ter passado, mas os hospitais continuam sob pressão, com milhares de pessoas internadas e cuidados intensivos no limite. E centenas de mortes diárias.

Também ninguém pode ter dúvidas sobre a forma mais eficaz de combater os contágios. Quanto menos gente a circular nas ruas, nos locais de trabalho, nos transportes públicos, nas lojas e centros comerciais, nos restaurantes ou nas escolas, menor o número de infetados e, algumas semanas depois, menor o número de internados, menor o número de mortos. Os peritos em saúde pública pediram, por isso, mais um mês de confinamento. E os políticos já sinalizaram que assim será.

Não se crie, no entanto, a ilusão, de que as medidas de controlo sanitário se limitam a fazer descer uma curva. Há um preço a pagar. Para que desçam as curvas das infeções, internados e mortes, vão continuar a subir as curvas do desemprego, das dívidas por pagar, do fecho de empresas, da perda de rendimentos e salários, da pobreza e, finalmente, a curva da fome. Aliás, se um destes dias os políticos quiserem convocar para o Infarmed, e para além de infeciologistas, epidemiologistas e matemáticos, um especialista em pobreza, sugiro o João Dias, 21 anos, voluntário do Porta Solidária, um projeto da paróquia do Marquês, no Porto, que dá agora de comer a 600 famílias (eram 150 antes da pandemia). Julgo que bastaria uma única frase: "Não é fácil ver uma criança numa fila [para comer], à chuva, no meio de tanta gente".

Manuel Carmo Gomes, epidemiologista que se tem destacado pela defesa de medidas duras de confinamento, traçou ontem as linhas vermelhas que não podemos cruzar, se quisermos regressar a alguma dose de normalidade: dois mil casos por dia (ontem tivemos 2583), 1500 pessoas internadas nos hospitais (ontem estavam 6070) e 200 nos cuidados intensivos (ontem eram 862). É um cientista reputado, devemos dar-lhe ouvidos. Mas, no que diz respeito à pandemia da pobreza e da fome, e a julgar pelos voluntários que estão no terreno, há muito que as linhas vermelhas foram cruzadas. São tempos de "descalabro total", alerta Cláudia, 42 anos, voluntária da associação Hoje, que garante alimentação de emergência a 62 famílias do Porto. Talvez o assunto já justificasse uma sessão num auditório qualquer, com um ou dois ministros e líderes partidários.

*Diretor-adjunto

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