Opinião

O emprego está a crescer

O emprego está a crescer

1. Nuno Amado, presidente do BCP, tem o segredo para acabar com o desemprego: reduzir "um bocadinho" os salários, para manter "um bocadinho" de emprego. Há gente assim, terra a terra, que prefere soluções maneirinhas a soluções grandiloquentes. Baixam-se os salários, que, como se sabe, em Portugal são elevadíssimos, e dessa forma as empresas em dificuldade não precisam de despedir tanta gente... mas só "um bocadinho" de gente.

Houve, noutros tempos, quem imaginasse e propusesse um país de gente pobre mas honrada. Depois deu-se uma Revolução e começou a folia de um grupo de lunáticos que viveu acima das suas possibilidades. Felizmente que entretanto veio a troika e hoje voltam a ouvir-se vozes pragmáticas, que aperfeiçoaram o desígnio: seremos um país de gente pobre, mas empregada. Pelo menos "um bocadinho".

Uma nota final só para dizer que Nuno Amado recebeu 385 mil euros, durante 2012, enquanto presidente do Conselho de Administração do BCP. A dividir por 14 salários, dá quase 28 mil euros por mês. Não ficou claro na intervenção do banqueiro qual o "bocadinho" de que vai abdicar.

2. Portugal registou mais um recorde: a taxa de desemprego chegou aos 17,7%, ou seja, há 952 mil pessoas sem emprego. Se se somar as que deixaram de procurar emprego onde ele não existe (nos centros de emprego), então há quem aponte para cerca de milhão e meio de pessoas capazes de trabalhar, mas incapazes de conseguir trabalho.

O Governo está, naturalmente, preocupado. Mas ninguém gosta de ser incomodado com números desagradáveis. Luís Marques Guedes, o novo ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, pôs o dedo na ferida: "mais do que pensar na taxa, importa definir políticas para ajudar as empresas a criar emprego".

Uns minutos depois, no final de mais um Conselho de Ministros com soluções infalíveis para o país, explicou melhor que políticas serão essas. As indemnizações a que os trabalhadores têm direito quando forem despedidos serão reduzidas, a partir de 1 de Outubro. Passam do equivalente a 20 dias de salário por ano trabalhado, para 18 dias nos primeiros três anos e 12 dias nos anos seguintes.

A lógica da medida é imbatível. O Governo já tinha diminuído os montantes da indemnização por despedimento de 30 para 20 dias. E como agora se vê, a taxa de desemprego continuou a subir. Portanto, e seguindo a linha de raciocínio do ministro, é só deixar de pensar na taxa de desemprego e seguir em frente. Pobres, sem honra e sem emprego.

3. Há um mercado de emprego florescente em Portugal. Como que a provar que nem tudo são más notícias. No primeiro trimestre do ano, segundo as estatísticas do INE, no escalão de salários abaixo dos 310 euros registou-se um saldo líquido de 21 mil empregos. Não há razão para desdenhar: se pensarmos na moeda antiga, é um salário superior a 60 contos.

Note-se que, de uma assentada, se cumprem os propósitos de Nuno Amado e de Marques Guedes, citados mais acima. Em favor das teses do primeiro temos que ganhar menos de 310 euros corresponde a "um bocadinho" menos que o salário mínimo nacional, que anda por uns desmesurados 485 euros, o que levará as empresas a preservar, não "um bocadinho", mas "um bocadão" de emprego. Em favor das teses do segundo temos que as indemnizações a pagar a quem ganha menos de 310 euros serão bastante baixas, o que promoverá a criação desenfreada de emprego. Ainda que seja um emprego barato, precário, até degradante.

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