Opinião

O mais caro do Mundo

Quando aqueles grandes olhos castanhos se fixam nos nossos, não há margem para dúvidas. Quando uma criança de dois meses e meio enfrenta uma sentença de morte, por causa de uma doença degenerativa, não há margem para dúvidas. Quando existe um medicamento que promete a cura, não há margem para dúvidas. É preciso ir buscá-lo, seja qual for o custo. Para a Matilde e todas as outras Matildes. É um imperativo categórico, tal como o definiu o filósofo Immanuel Kant. Sucede que isto também se aplica às multinacionais. Ir buscar o medicamento a qualquer custo não é sinónimo de pagar o preço que o especulador quer impor. Embora seja precisamente isso que acontece neste Mundo em que a ganância e o lucro valem mais do que as vidas humanas. A forma como a notícia foi lançada pela Comunicação Social diz tudo. Para salvar Matilde é preciso comprar o medicamento mais caro do Mundo. Deu ótimos títulos. E dará lucros pornográficos. É verdade que a nova geração de medicamentos especializados, personalizados e inovadores (é assim que os descreve quem manda na Novartis) implicam investimentos de milhões. É verdade que a multinacional suíça pagou 7,7 mil milhões de euros pela Avexis, de olho no potencial do Zolgensma (e outras terapias genéticas). É quase o valor do orçamento anual do nosso Ministério da Saúde. Mas também é verdade, como alertam os Médicos do Mundo - a propósito de um novo medicamento contra o cancro, que custará 350 mil euros por paciente, também da Novartis - que não há como justificar semelhantes valores. Nem pelos custos de produção, nem pelo investimento em investigação, amplamente suportado por fundos públicos nos EUA e na Europa. Nos inovadores tratamentos do cancro, como nas terapias genéticas que podem salvar Matilde, "o preço da esperança" tornou-se "exorbitante". Faça-se o que for preciso para salvar as Matildes. Mas que não se dê rédea solta à amoralidade. Não podemos ficar nas mãos de traficantes de vidas humanas.

*Chefe de Redação