Opinião

O preço de fechar escolas

O preço de fechar escolas

Os alemães, como outros europeus, estão agora a sentir os efeitos da terceira vaga da pandemia, com o carrossel infernal de novos casos, internamentos e mortes. Os alemães, como até há poucas semanas os portugueses, também aceitam que o combate implique limitações à sua liberdade e prosperidade.

O barómetro da ZDF (televisão pública alemã) do último fim-de-semana apontava para uma clara maioria (68%) a favor do prolongamento das restrições. E notava que havia mais gente a pedir medidas mais rígidas (36%) do que a contestar os exageros (23%). Mas há uma resposta em que os alemães adotam, pelo menos por agora, uma postura diferente dos portugueses: 70% quer as escolas abertas, mesmo perante o número crescente de infeções.

Já terão percebido o que a esmagadora maioria dos políticos portugueses teima em desvalorizar a cada vaga (com uma ou outra exceção, incluindo o desprotegido ministro da Educação, que resiste quanto pode): o efeito devastador de fechar as escolas no futuro de qualquer país.

Basta ler as notícias sobre a avaliação ao impacto do ensino à distância em Portugal, divulgado esta semana, e atentar na principal conclusão: mais de metade dos alunos do 6.º e 9.º anos são incapazes de atingir níveis de competência elementares. Detalhando: quase dois terços dos alunos do 9.º ano não respondem de forma correta às questões mais simples da Matemática; quase a mesma proporção no 6.º ano não consegue ultrapassar sequer as perguntas mais elementares na Leitura e Informação.

Acresce que esta avaliação foi feita em janeiro, e mostra apenas os efeitos do fecho das escolas durante o ano letivo passado. Pouco depois desta desgraça, os mesmos alunos foram de novo enviados para casa. E ainda é em casa que estão, dois meses e meio depois. Ou seja, temos nas mãos um diagnóstico terrível que peca por defeito.

No último ano disseminou-se em Portugal um novo passatempo, intitulado tiro ao negacionista, que tanto serve para ridicularizar merecidamente as figuras caricatas que por aí abundam, como para tentar desvalorizar quem pede ponderação e avaliação, antes de decisões radicais.

É um passatempo que casa bem com as massas ululantes e ignorantes das redes sociais, que alguns políticos (do poder e da oposição) temem mais do que a peste. O resultado está à vista. Aqui, na Alemanha talvez não.

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Diretor-adjunto

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