A abrir

Os muros

1.O muro será construído em França, mas é o Governo britânico que o paga. Duas barreiras de cimento, com mais de quatro metros de altura, ao longo da estrada que leva ao porto de Calais, que se somam ao arame farpado com que já se procurava conter os milhares de migrantes, sobretudo africanos, que sobrevivem na "Selva" à espera de uma boleia para o outro lado da Mancha. Rapidamente ficaria demonstrada a sua inutilidade, se o objetivo fosse mesmo o de travar a passagem de uns quantos deserdados. Acontece que a construção do muro serve sobretudo aos dois governos para fazer passar uma mensagem política que vai de encontro aos receios de uma grande parte (provavelmente já a maior parte) dos cidadãos dos dois países: os imigrantes não são bem-vindos, tanto dá que sejam muçulmanos da Síria, como cristãos da Eritreia, que fujam da guerra ou da fome.

2.Os resultados mais recentes das eleições alemãs mostram que também ali está em construção um muro (por enquanto, em forma de metáfora política). O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha ultrapassou pela primeira vez a Direita clássica (a CDU, de Angela Merkel). Já está presente em nove dos parlamentos regionais e ameaça transformar-se no terceiro maior partido nas eleições nacionais. Fundado há três anos, a AfD tinha como objetivo o fim do euro e o regresso ao marco. Mas isso foi antes da Alemanha acolher mais de um milhão de refugiados (só em 2015) e aumentar os gastos da segurança social em 120% para os 5300 milhões de euros anuais só com as prestações atribuídas a estrangeiros (só em 2015). Os extremistas descobriram que este é um filão bem mais prometedor e assumiram-se como os paladinos da resistência à invasão estrangeira. Prometem acabar com o acolhimento de refugiados, com destaque para os muçulmanos, "uma religião que não pertence à Alemanha". Não vão conquistar o Poder (por enquanto), mas vão obrigar Merkel a ceder.

3. Reino Unido e Alemanha são dois dos maiores e mais influentes países da Europa e do mundo ocidental (e referência fundamental para quem aprecie a democracia e os direitos humanos). Se estivessem sozinhos nesta nova cruzada já seria preocupante. Acontece que não estão. Basta olhar para França e para a força crescente da extrema-direita (a sua líder Marine Le Pen é presença quase certa na segunda volta das eleições presidenciais), ou para o facto do Partido da Liberdade de Gert Wilders (que foi à convenção republicana partilhar pontos de vista com Donald Trump) liderar as sondagens para as eleições na Holanda, para se perceber que o radicalismo das suas propostas já não é uma ameaça distante e que já não são apenas uns grupúsculos de lunáticos. Não tarda, serão a maioria.

* EDITOR-EXECUTIVO

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