Opinião

Para além de Sócrates

Para além de Sócrates

José Sócrates vai ou não a julgamento? E se for, quais serão os crimes pelos quais terá de responder?

Faltam dois dias para que estas perguntas tenham resposta. Depois de dois anos de uma espécie de pré-julgamento, o juiz de instrução Ivo Rosa comunicará a sua decisão esta sexta-feira. Aos arguidos, em primeiro lugar, mas também aos portugueses.

Sendo todos os julgamentos públicos, este tem um interesse público acima de qualquer outro que esteja na memória coletiva. Não é apenas porque está em causa a forma como um primeiro-ministro se terá comportado enquanto estava no cargo - ou seja, não se trata apenas de saber se José Sócrates cometeu os crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção (e já seria o suficiente para considerar o julgamento do século). É também porque este é um processo que cruza personagens e corporações que marcaram as últimas décadas. A forma como as elites políticas, económicas e financeiras geriam, influenciavam e tiravam partido dos recursos da República está também em escrutínio.

Basta lembrar algumas das parcelas do processo para perceber até que ponto está em causa uma certa forma de gerir (ou saquear) um país. Desde logo, os interesses cruzados entre a política, a alta finança e os grandes conglomerados empresariais, através do Grupo Espírito Santo e da antiga PT - quantas vezes fomos confrontados, nas últimas décadas, com o corrupio de políticos que, ora estavam no Governo, ou próximo dele, e depois (ou antes) nas administrações, conselhos ou fundações dos vários potentados financeiros ou empresariais?

Depois, as ligações entre a política e os negócios de milhões no imobiliário, em que o banco público foi usado como mealheiro da "família" (como no caso Vale do Lobo). Ou o filão das obras públicas e dos seus concursos obscuros (como no TGV). E, finalmente, a proteção aos trânsfugas milionários, com o uso e abuso de regimes excecionais de regularização tributária, cujas três versões, entre 2005 e 2012, fizeram aparecer seis mil milhões escondidos debaixo do tapete dos bancos suíços, a troco de uma taxa de imposto de 5% (incluindo os 20 milhões de Carlos Santos Silva, o amigo de Sócrates).

Para além de José Sócrates, é também o regime que está em causa.

*Diretor-adjunto

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