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Reinventar o país

1 Ano novo, vida nova. A ideia não tem nada de original. Mas isso não costuma demover um bom político, ou seja, um daqueles que gostam de falar em nome do povo. Muito menos se se tratar do nosso prolixo presidente da República, que mais junto do povo não podia estar. Povo, aliás, que costuma dizer, a propósito de tudo e de nada, que já está tudo inventado. Mas nem a sabedoria popular impõe a Marcelo Rebelo de Sousa um maior comedimento. Foi só acrescentar o prefixo "re" ao substantivo invenção e ficou dado o mote para um novo desígnio nacional: este será o ano da reinvenção de Portugal. É verdade que ninguém percebeu muito bem que reinvenção será essa, mas resulta bem na televisão. E é uma palavra mais refrescante e até afetuosa (e portanto ao gosto de Marcelo) do que reforma, que era o que se usava até aqui. Reinvente-se, portanto.

2 Os administradores dos CTT devem ter seguido com atenção as palavras do presidente da República. E foram dos primeiros a mostrar como se faz a reinvenção de Portugal: vão fechar mais 22 postos dos Correios, um pouco por todo o país. Faz todo o sentido. Portugal está a envelhecer e há portanto cada vez mais reformados e pensionistas infoexcluídos que insistem em receber o subsídio mensal na forma de um vale postal em papel. É preciso convencer o pessoal de cabelo grisalho, ainda que seja à força, a reinventar-se, usando as novas tecnologias. Podem sempre abrir uma conta no novo banco postal e usar o "homebanking". Tudo pela Internet. Claro que, nestas coisas das reinvenções, há sempre os velhos do Restelo. O presidente socialista da Câmara de Vila Real, por exemplo, acha tudo isto uma "loucura" e exige a reversão da nacionalização ou, no mínimo, o resgate da concessão de serviço público. Para entregar a quem, senhor presidente?

3 Outro dos sinais de que vem aí uma reinvenção do país é a lista de benefícios e isenções fiscais que a Autoridade Tributária distribui, de forma bastante generosa, a empresas, autarquias, fundações e quejandos. Os dados só agora foram disponibilizados pelo Fisco, mas remetem para 2016. Ainda assim, são refrescantes: com um Governo de Esquerda subiram para 2,5 mil milhões de euros, ou seja, mais 30% do que no ano anterior. Ou seja, num ano o Estado "perdoa" em impostos o equivalente à receita que angariou com a privatização dos CTT, da REN (Rede Elétrica Nacional) e da ANA (Aeroportos de Portugal), que têm em comum prestar um serviço público. A pergunta que fica no ar é a seguinte: será que o presidente da República equaciona vetar, tal como fez relativamente à isenção de IVA aos partidos, este bodo aos ricos? É dinheiro que dava para reinventar o país.

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