Opinião

Retorno garantido

A propaganda já tinha decretado que 2017 foi o melhor ano de sempre no défice. Qualquer coisa como 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Talvez não fosse caso para grande festa, uma vez que o que isto quer dizer é que o país está mais poupadinho, mas continua a gastar mais do que aquilo que tem. E, portanto, que a dívida continua a crescer.

Acresce que houve uns senhores do Eurostat que, se não foram a tempo de evitar os foguetes, tentaram impedir o Governo de apanhar as canas. Não consegui descobrir quem manda no instituto de estatística europeu, mas, ou são alemães, ou adeptos da austeridade, ou ambos. Diz o Eurostat que, afinal, os milhares de milhões de euros injetados na Caixa Geral de Depósitos (CGD), para além de somarem à dívida, contam para o défice anual. E que o défice foi de 3% do PIB.

Nada que uma boa dose de criatividade não resolva: já foi cunhado um novo conceito, o de défice político, que continua solidamente nos 0,9%. E o nosso ministro das Finanças, com o sobrepeso de ser chefe do Eurogrupo, pôs os pontos nos is. A pipa de massa atirada, no ano passado, para o buraco da CGD só pode somar à dívida, nunca ao défice. Porquê? Porque é um investimento e vai gerar retorno. Notem, Mário Centeno conseguiu dizer isto sem se rir.

É importante repetir, para que não restem dúvidas. Aquilo que até aqui designávamos por resgate de bancos, com o dinheiro dos contribuintes, passa a ser conhecido por investimento em bancos. Assim, e segundo as contas publicadas no JN, mas tendo em conta a nova terminologia, em 2017, entre o que foi para a CGD e o que se pagou de juros por gastos anteriores em bancos igualmente promissores, investiram-se 4,5 mil milhões de euros. Foi o segundo maior investimento da última década. Um esforço louvável do Governo PS, que, ainda assim, não conseguiu superar o estratosférico investimento do Governo PSD/CDS: em 2014, foram 5,1 mil milhões de euros de investimento, graças ao Banco Espírito Santo (hoje Novo Banco). Somada uma década a salvar bancos, perdão, a investir em bancos, são 17 mil milhões de euros.

São números com demasiados zeros? Isso resolve-se. O investimento da última década nos bancos custou a cada português 1700 euros. Ou seja, se o leitor fizer parte de um agregado de quatro pessoas, a sua família investiu 6800 euros. E só no ano passado, o do investimento na CGD, foram 1800 euros (450 por cabeça para uma família de quatro). Nada receie, é de retorno garantido. Palavra de ministro.

* EDITOR-EXECUTIVO

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