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TAP, Portugal e paisagem

TAP, Portugal e paisagem

Seja através de uma nacionalização, seja através de uma negociação (riscar o que não interessa), é certo que haverá intervenção do Estado e a respetiva injeção de dinheiro dos contribuintes na TAP - 1200 milhões de euros no mínimo, se vingar a solução negociada, porque, no que diz respeito ao deve e haver de uma nacionalização, será preciso esperar pelo menos um par de anos para fazer as contas.

Foi o próprio António Costa que concluiu, para nos sossegar, que "Portugal terá a sua companhia". Fica no entanto a dúvida sobre o que se entende por Portugal. Está comprovado que a visão dos ainda acionistas e gestores da TAP é a de que o país é Lisboa e o resto paisagem.

Foi assim nos últimos anos, com cortes nas rotas internacionais a partir do Porto, por vezes revertidos, quando o mercado tratou de demonstrar o disparate. É assim agora quando se prepara a retoma, com o que resta da operação a ser quase toda canalizada para Lisboa, mesmo que companhias como a Swiss, Brussels Airlines ou Luxair anunciem a cada semana o reforço das ligações com o Aeroporto Sá Carneiro, ocupando parte do espaço deixado ao abandono pela companhia que afinal é de Lisboa.

Muitos têm dito ou escrito nos últimos dias que, numa situação desesperada, com milhares de postos de trabalho em causa, não é altura para contestações regionalistas (como a da Associação Comercial do Porto, que, com a sua ação nos tribunais, já conseguiu pelo menos que o Supremo imponha ao Governo maior transparência no processo).

Falácias de quem tenta ignorar que regionalismo é sinónimo de coesão e antónimo de centralismo. Se na verdade o que os preocupa é o caciquismo (que associam frequentemente a regionalismo), pois que olhem do Terreiro do Paço em direção à baía de Cascais, onde o regedor local ameaça parar os autocarros que chegam de Sintra e Oeiras, carregados de "bicho".

Os argumentos regionais, a preocupação com a coesão e a equidade territorial, nunca estão a mais na política. O que está a mais é a linguagem provinciana dos que pediram cercas para o Porto há dois meses, ou dos que agora pedem cercas para Lisboa. Não se confundam, no entanto. Isso não é regionalismo, é parvoíce. E é nacional.

*Chefe de redação

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