Opinião

Um país juncado de cadáveres

Um país juncado de cadáveres

O relato radiofónico da TSF arrancou com os números de Gaspar, enunciados naquele tom de folha de Excel falante: a recessão que afinal vai chegar aos 2,3% (o país vai ficar 3800 milhões de euros mais pobre); a taxa de desemprego que afinal vai chegar aos 19% (bem mais de um milhão de pessoas sem emprego).

E o que tinha o ministro das Finanças para nos oferecer à troca deste "flagelo social"? A promessa de que o garrote continuará a apertar. Mais devagar, mas a apertar. Lembrei-me de uma frase do bispo das Forças Armadas, ouvida também na TSF um destes dias: vivemos num país que ameaça ficar juncado de cadáveres.

Gaspar deixou-me atordoado, mas a espiral recessiva ainda só tinha começado. Chegou do éter, logo a seguir, a voz de Cavaco Silva, explicando que nisso do corte de quatro mil milhões, uma coisa é a intenção, outra é o que o Governo faz. No fundo, que não vale a pena sofrer por antecipação. Há que esperar tranquilamente pelos orçamentos de 2013 (neste caso, um orçamento retificativo), de 2014 e de 2015. Confirmei que Cavaco prefere a condição de analista político do óbvio, ao papel de presidente da República. Cada vez mais parecido com um jarrão, daqueles que não servem para nada mas ajudam a decorar o salão onde se recebem os dignatários estrangeiros.

Seguiu-se, no alinhamento da rádio, a jovem estrela popular João Almeida. Lembrei-me que foi o homem que já antes erguera, corajoso, a voz contra Gaspar, numa reunião de porta suficientemente fechada para que ninguém ouvisse em direto, mas suficientemente aberta para que alguém sussurrasse a façanha. E aí estava ele de novo, perorando contra os de fora, os da troika, os que falham previsões, os que insistem no erro de somar austeridade à austeridade. Belisquei-me. Era João Almeida, o porta-voz do CDS-PP, esse mesmo, um dos partidos do Governo. Brilhante aprendiz do mestre Portas, o ilusionista exímio na arte de parecer que está fora, estando dentro.

A rádio é um monstro insaciável. Ao jogo de espelhos de Almeida sobreveio, do fim da rua, ou do fim do Mundo, vá lá saber-se, o momento de alienação de Miguel Frasquilho, deputado do PSD especializado em questões económico-financeiras e contorcionismos vários. Saudava o realismo das novas previsões de Gaspar, que corrigem outras, do mesmo Gaspar, feitas há poucas semanas, que por sua vez corrigiam as anteriores, ainda de Gaspar, feitas uns meses antes. Perdi o fio à meada, mas percebi que Frasquilho, qual perdigueiro da política, não largou a pista e, de correção em correção, chegou ao pecado original: um memorando sem aderência à realidade. Aquele que foi negociado por Catroga e assinado pelo PSD.

Ouvir, esta sexta-feira, o noticiário das 14 horas na TSF, revelou-se uma experiência radical. Felizmente cheguei ao destino e a rádio calou-se. Veio-me à memória aquele outro momento em que uma mãe chorou em direto na TSF, desesperada com a sua incapacidade para garantir comida na mesa. Um país juncado de cadáveres? Na altura em que ouvi pela primeira vez pareceu-me excessivo. Hoje nem tanto.

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