Opinião

Um povo sem Estado

Qualquer acontecimento no Médio Oriente deve ser analisado com cautela. Certezas sobre quem são os bandidos ou os heróis significam, por norma, que o que se diz ou escreve corresponde a uma agenda política.

Outras vezes, é só ignorância. Se o que está em causa é a situação na Síria e a sua guerra mundial por procuração, maior prudência se aconselha. Nada ali é a preto e branco. Quem nunca tiver cometido nenhum crime de guerra neste país destroçado por oito anos de massacres, que atire a primeira pedra. Ainda assim, e no meio do caos gerado pelos interesses conflituantes de iranianos, franceses, russos, americanos, sauditas, iraquianos, turcos ou israelitas, pelo controlo do negócio das armas e do petróleo; por entre o historial de violência entre cristãos, sunitas, ou xiitas, pelo controlo do negócio das almas; ainda assim, dizia, temos os curdos.

Apesar do extremismo religioso e da violência com que são confrontados há mais de um século, ainda é possível dizer que são dos poucos que mantiveram fórmulas de administração seculares (até democráticas) ou em que podem vislumbrar-se sinais de igualdade de género (até em combate). Pois este povo, que já tinha sido o que melhor resistiu à ofensiva do Estado Islâmico, organizando milícias que defenderam a sua população e as suas cidades; este povo, que foi depois o ponta de lança da ofensiva ocidental (e dos seus valores) contra os terroristas, primeiro no Iraque, depois na Síria; este povo, dizia, volta a ser abandonado à sua sorte, com a iminente invasão da Turquia, que até já expôs os seus planos de limpeza étnica: vai despejar dois milhões de refugiados no Curdistão sírio.

Ainda não será desta que os curdos deixarão de ser apontados como o melhor exemplo de um povo sem Estado. Têm as gentes e têm o território (repartido pela Turquia, Iraque, Irão e Síria). Falta-lhes o Governo soberano. E sobram-lhes as traições do Mundo ocidental.

*Chefe de Redação