Opinião

A eleição do rei

O início do ano de 2021 ficará marcado por novas eleições presidenciais em Portugal, as quais, tal como vem acontecendo de há algumas décadas a esta parte, não parecem capazes de suscitar um particular entusiasmo nos eleitores.

Olhando para o historial destas eleições no período democrático, é fácil constatar que houve sobretudo dois momentos de especial disputa e clivagem ideológica e partidária: o embate entre Mário Soares e Freitas do Amaral, em 1986 (que redundou na única ocasião em foi necessário o recurso a uma segunda volta); e o frente a frente entre Jorge Sampaio e Cavaco Silva, em 1996 (resolvido por cerca de 400 000 votos de diferença).

Tal facto, que se tem refletido também numa diminuição contínua da participação dos cidadãos (para baixo dos 50%), não será de estranhar numa eleição que se reveste de um cariz marcadamente individual, em que a personalidade e cariz dos candidatos se sobrepõe às suas bases naturais de apoio.

Neste período, porém, houve circunstâncias necessariamente diferentes. Em 1991, por exemplo, Mário Soares consegue o resultado mais elevado, 70,35% (que Marcelo Rebelo de Sousa quererá bater em 2021), graças ao apoio tácito do PSD e do primeiro-ministro em exercício... Cavaco Silva.

Agora, o líder do PS e primeiro-ministro, António Costa, levou um pouco mais além o patamar de afinidade com o presidente do espetro político oposto, ao assumir-se como um quase mandatário da sua candidatura, avançando com um apoio público precoce para que arrastou outros altos responsáveis socialistas, como o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues.

Alguns meses mais tarde, o líder do PSD procura "resgatar" a titularidade sobre o "berço político" do atual e futuro presidente da República, expressando também um apoio formal a uma candidatura que ainda não se assumiu como tal.

Curiosamente, se o apoio de António Costa "indignou" alguns socialistas, o apoio de Rui Rio também "inquietou" alguns sociais-democratas, que ainda digerem a mágoa com as simpatias do presidente para com o Governo da "geringonça".

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Ainda antes do aparecimento de todos os candidatos da "sociedade civil", com os candidatos do BE, PCP e IL na busca da fidelização do seu eleitorado, as próximas eleições encerrarão também uma curiosa disputa entre o líder do Chega e Ana Gomes por esses cidadãos descontentes. E, no final, terá a militante socialista os votos necessários para conseguir a demissão de André Ventura?

Eu votarei Marcelo Rebelo de Sousa.

* Presidente da Câmara de Braga

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