Opinião

O lado B da pandemia

Se há algo que podemos dar como certo é que não teremos conferências de Imprensa diárias do ministro da Economia e do presidente do IEFP, do IAPMEI ou da Segurança Social a dar nota da evolução diária do número de novos desempregados, dos trabalhadores em lay-off ou das empresas encerradas, no país e nos diferentes territórios.

Na essência, a iniciativa aparentemente "macabra" não diferiria muito do reporte diário da sua congénere da Saúde, servindo sobretudo, nessa vertente, para alimentar o apetite mediático e satisfazer a curiosidade popular.

Todavia, na prática, a mesma não deixaria de evidenciar um fenómeno tão preocupante quanto o da dimensão estritamente sanitária, traduzido nos impactos económicos, primeiro, e sociais, depois, que a pandemia invariavelmente acarretará.

A questão não é nova e raro terá sido o momento em que toda e qualquer decisão das autoridades públicas não tenha também tido em conta esta vertente das consequências para o país e para a população.

Seria talvez mais seguro avançar com medidas mais restritivas de desconfinamento. Mas com que custos sobre a sustentabilidade das empresas de inúmeros setores e sobre os respetivos postos de trabalho?

Seria seguramente apetecível ter medidas mais generosas de apoio ao tecido económico e de respaldo social. Mas com que nível de investimento, face ao volume crescente de solicitações e ao seu prolongamento indefinido no tempo?

Mesmo assim, estar-se-á, por certo, a adiar os impactos reais sobre muitos agentes económicos com balões de oxigénio artificiais que se poderão revelar insuficientes. Mas quem poderia deixar de tentar ajudar empresas e cidadãos a resistir à violência do embate?

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Os números já conhecidos para o segundo trimestre deste ano de 2020 são devastadores. Em Portugal, pior que na Europa. As perspetivas próximas são também extremamente sombrias, por mais otimismo que possamos depositar num amanhã tão incerto.

Louve-se o realismo e a frontalidade do primeiro-ministro que numa das poucas reuniões que manteve com os autarcas, logo no início da pandemia, alertou: "Não embarquem numa generosidade fácil excessiva porque vai ser preciso guardar músculo para o que virá".

Uma responsabilidade que impende sobre autarcas, Estado e a sociedade no seu todo. Porque só com uma ação articulada será possível encetar uma verdadeira recuperação económica e fazer jus ao mote de não deixar ninguém para trás.

*Presidente da Câmara de Braga

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