Opinião

Razão e emoção

Numa das conferências de imprensa de atualização dos dados diários da pandemia no nossos país, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, emocionou-se ao dar conta da ausência de óbitos a reportar (algo que sucedia pela primeira vez desde 17 de março).

Sempre sujeito, como todos os demais responsáveis públicos, ao juízo crítico de uns e de outros, até nesse momento, por algo e pelo seu contrário, poucos terão sido aqueles que partilham responsabilidades análogas (em diferentes escalas) que não se sentiram identificados com a autenticidade daquela fugaz descarga emocional.

Se seria sempre possível invocar o lado humano, logo falível, com que se lida com uma circunstância envolta em tantas incertezas e imponderáveis do ponto de vista dos processos de tomada de decisão, aqueles minutos expuseram a dimensão emotiva com que tantos têm também que lidar, na gestão de um processo que nunca poderá ser tratado de forma empedernida.

Ao longo dos últimos meses, a impotência perante condicionantes adversas; a angústia na dificuldade de mobilização de soluções; a alegria pelos pequenos sucessos registados; o alívio pelos momentos de tranquilidade da crise; vividos na primeira pessoa por milhares de responsáveis do Norte ao Sul, potenciaria um portefólio notável de imagens para memória futura.

Tal como naqueles breves minutos do secretário de Estado, sempre com a consciência de que a acalmia do oceano não passa muitas vezes de uma efémera ilusão antes de nova tempestade.

Independentemente dos números diários de infetados, o procedimento não deve ser hoje diferente de todos os últimos meses: acompanhar, testar, isolar e assim conter as cadeias de transmissão. Sobretudo porque, num contexto de incontornável maior abertura da nossa vida em comum, o risco de propagação é obviamente maior do que em circunstâncias anteriores.

Do trabalho ao lazer, do comércio às escolas, dos espaços públicos aos meios familiares, cada um de nós está e estará com muito mais pessoas, ampliando a possibilidade de possíveis contágios.

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Não voltamos ao normal. E por ínfimo que possa parecer, um descuido pode ter impactos avassaladores.

É bom voltar a ver as lojas e restaurantes a pulsar de vida, mas os seus proprietários devem ter presente a travessia do deserto do segundo trimestre deste ano.

É bom propiciar uma maior abertura às valências sociais, mas sem esquecer o barril de pólvora em que se podem transformar se não seguirem escrupulosamente as regras aplicáveis.

Nestas, como em tantas outras circunstâncias, que as lágrimas sejam só de alegria e alívio.

Presidente da Câmara de Braga

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