Opinião

Serenidade

No início de setembro, completaram-se seis meses desde que foram oficialmente registados os primeiros casos de covid-19 no nosso país.

Este longo semestre transformou as nossas vidas e rotinas e deixou marcas indeléveis em diversas dimensões que se acentuarão nos tempos vindouros.

No todo de Portugal, nunca tivemos um período de "tranquilidade": dos focos iniciais no Norte; à propagação acelerada que se seguiu na Área Metropolitana de Lisboa; aos surtos isolados em concelhos ou instituições.

Mais recentemente, com a homogeneização territorial dos contágios, os números acumulados voltaram a agravar-se, ainda que a análise dos dados de cada uma das regiões revele situações menos graves que em outros períodos da pandemia.

Também por estes dias, vão-se conjugando os requisitos para uma forte alavancagem dos riscos de exposição ao contágio, com o regresso das férias, o reinício das aulas, a retoma da prática desportiva, a reabertura de valências sociais, a aproximação do período sazonal normalmente associado a outras patologias (como a própria gripe).

Coletivamente, vamos vivendo este sentimento algo esquizofrénico de alarmismo comunitário: ora indignando-nos massivamente com determinadas realizações (o espetáculo do Bruno Nogueira no Campo Pequeno, as realizações desportivas ou a Festa do Avante), mas contribuindo indiferentes para o ajuntamento no supermercado, na esplanada, ou no convívio com amigos e familiares.

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O que era absolutamente novo há seis meses, hoje já não é. Não é do ponto de vista clínico e da capacidade de resposta. Não é do ponto de vista social e das normas que devem ser adotadas em cada contexto. Não é do ponto de vista político quanto aos mecanismos a que se deve recorrer para controlar riscos em caso de agravamento da situação.

As regras veiculadas pelo Governo para o estado de contingência que amanhã entra em vigor são um bom exemplo disso mesmo: restritivas, mas não rígidas, dando espaço à valorização das condutas individuais enquanto melhor meio para conter riscos nos diferentes contextos.

São também um apelo à mobilização coletiva, porque, como referia o arcebispo de Braga este fim de semana, "só com muitas chaves se fecha a porta ao vírus".

E a serenidade com que temos de encarar os desafios com que nos deparamos não pode nunca traduzir uma alienação da responsabilidade de fazermos o que está ao nosso alcance para nos protegermos e a quem nos rodeia.

Sem pânico. Sem demagogia. Sem facilitar.

*Presidente da Câmara Municipal de Braga

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