Opinião

Vai-não-vai

Mais de três meses volvidos sobre o início "oficial" da pandemia, Portugal regista mais de 30 000 casos confirmados e cerca de 1500 óbitos associados à covid-19.

Na vizinha Espanha, o número de casos confirmados (240 000) quase respeita a proporção da população, mas o número de mortes é 18 vezes superior, ultrapassando as 27 000 pessoas.

Mais além, a Itália tem uma população superior a Espanha, mas menos casos confirmados, apesar de registar mais 6000 óbitos.

Sem prejuízo de muitas outras comparações que se podem realizar, umas mais favoráveis que outras, o confronto com estas duas realidades próximas traduz um sucesso relativo inequívoco, assente numa conclusão socialmente valiosa: em Portugal, ter-se-ão salvo muitas vidas.

Se o mérito foi da ação governativa, dos autarcas, da qualidade dos profissionais e equipamentos de saúde, da ação consciente da população ou da mera sorte, só o tempo permitirá ajuizar de forma mais cabal.

O que parece claro é que Portugal terá prosseguido um processo de confinamento que muito contribuiu para a criação dos alicerces para estes resultados, tenha o mesmo resultado do medo, do sentido de responsabilidade individual ou de medidas mais ou menos coercivas ditadas por diferentes entidades.

Subsistindo o risco e parecendo claro que país algum poderia permanecer em clausura coletiva por tempo indeterminado, fosse pelas incontornáaveis razões de natureza económica e social, pelas condicionantes financeiras, públicas e privadas, ou pela menos visível salvaguarda do bem-estar físico e mental dos seus cidadãos, o foco passa para a conciliação possível de objetivos aparentemente divergentes.

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Nestas últimas semanas, e com a exceção do que vem ocorrendo na área da Grande Lisboa, a verdade é que os resultados globais do ponto de vista da saúde pública não parecem suscitar especial preocupação.

Ainda assim, surge como principal ameaça a assimetria de sinais e orientações com que a população se confronta. Se os últimos meses evidenciaram um Ministério da Saúde e uma DGS em constantes contradições temporais, hoje ninguém percebe a diferenciação de critérios para situações equivalentes aos olhos do senso comum.

Pior, quer-se mais cultura, sem regras que garantam a sustentabilidade da programação. Quer-se educação presencial, com critérios que inviabilizam fisicamente esse objetivo. Quer-se a retoma económica, sem que se garantam verdadeiros instrumentos de apoio aos setores mais lesados.

O exercício não é fácil. Mas nunca foi tão verdade como agora que não é possível ter sol na eira e chuva no nabal.

*Presidente da Câmara de Braga

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