Opinião

A Europa e os "bárbaros"

A Europa e os "bárbaros"

A Senhora Merkel e o Senhor Hollande estão, hoje, profundamente preocupados com os milhares de "bárbaros" que invadem a Europa. Os programas de asilo, inseridos em respostas securitárias, parecem, também agora, encarar a ameaça real dirigida ao coração da Europa "central".

Mas não há resposta tácita capaz para um fenómeno cuja origem, ou razões, são sucessivamente alienadas da consciência e do discurso político.

O que pensa fazer a "Europa" para conter os fluxos migratórios? Que análises e inflexões têm sido realizadas na política externa europeia sobre esta realidade brutal que nos chega quotidianamente há mais de um ano? Quanto tempo mais será possível conter a "orla de bárbaros" em campos de refugiados, muros, barreiras à cidadania sem que a "ordem" Europeia seja criticamente abalada? A comunidade de nações que organizou a guerra contra o Iraque (na busca de provas de armas químicas) ou contra o Afeganistão (cuja legitimidade não podia, segundo G. Bush, ser demonstrada por causas tradicionais) onde está agora? E que dizer dos silêncios públicos e das cumplicidades privadas com a Líbia, o Egito, a Síria?...

A par da irresponsabilidade pelos seus atos, a Europa olha para os "bárbaros" com o medo ancestral do "outro", do estrangeiro que pretende partilhar com ela uma herança e terra que são só suas.

E, porém, a Europa é intrinsecamente bárbara. Foram bárbaros os romanos para os gregos; os habitantes da Europa para os romanos invasores, os vândalos invasores da România....

Somos um produto racial, linguístico, étnico, porque nos movemos, cruzamos e aculturamos em tempos e contextos diversos.

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Foi no entrecruzar de línguas e culturas, na gestão da vida em comum, na inquietude do pensamento sobre a vida e os seus objetivos, que Europa se foi recriando em metamorfoses sucessivas. Não como um lago, mas como um mar de marés.

A Europa dos cafés de George Steiner, das cidades, herdeira de Atenas, Roma e Jerusalém, pagã e transcendente, construiu-se como projeto ou utopia: ideal de aspiração concreta e universal.

É essa Europa, grandiosa quando vista do exterior, que os migrantes buscam: os direitos humanos, feitos promessa de liberdade, igualdade e fraternidade.

Mas não a encontram. Tropeçam nas nações, nas fronteiras, e após mais ou menos conversa, a maioria regressará coercivamente ao lugar de partida, onde a morte espera.

Onde estamos nós neste holocausto?

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