Opinião

A voz dos inocentes

"Vocês só falam de crescimento económico e ambiental eterno porque têm demasiado medo de serem impopulares." "Dizem que amam os vossos filhos acima de tudo, contudo roubam-lhes o futuro mesmo à frente dos seus olhos"- excertos do discurso de Greta Thunberg, uma ecologista de 15 anos, na recente cimeira mundial das Nações Unidas sobre o clima, em Katowice (Polónia), cidade mineira onde duas das grandes empresas carvoeiras patrocinaram a cimeira.

O discurso de Greta correu Mundo, emocionando consciências, mas como a própria antecipara, os líderes dos 197 países presentes na cimeira "ignoraram-nos no passado e vão ignorar-nos de novo". Das conclusões da cimeira saiu tão-só a elaboração de um livro de regras que pretende aplicar o adiado Acordo de Paris.

Tragicamente, o Relatório do Orçamento do Carbono (ESSD, dezembro de 2018), aponta para um aumento de 2,7% nas emissões de CO2 em 2018 face a 2017, aproximando-nos dos 3 graus Celsius de aquecimento global vs. o limite de 1,5 graus definido como limiar no Acordo de Paris. A comunidade científica é perentória na validação absoluta destes factos. Mas quatro países, entre os quais o maior poluidor do Mundo - EUA -, rejeitam-nos.

A Natureza é global, não conhece fronteiras administrativas nem soluções isoladas. Segundo um artigo recente da revista "Nature", 70% dos territórios ainda selvagens estão em apenas cinco países: Rússia, Canadá, Austrália, Estados Unidos e Brasil. Na ausência de uma urgente visão conjunta e concertada sobre os ecossistemas de suporte à vida na Terra, estaremos confinados às opções de alguns. Entretanto, a Antártida e a Gronelândia derretem, o declínio irreversível da biodiversidade atinge níveis esmagadores (-60% entre 1970 e 2014), a desertificação avança tal como a fome e as migrações pelo esgotamento dos solos e perda da capacidade de produção de alimentos, agravando-se as assimetrias e os conflitos sociais.

Um dia, como disse Greta, "talvez me perguntem sobre vocês. Talvez me perguntem porque não fizeram nada quando ainda havia tempo para agir". Porque "nunca somos demasiado pequenos para fazer a diferença", temos o dever de não calar.

Professora Coordenadora do Politécnico do Porto