Opinião

A desigualdade que persiste…

Ter um curso superior garante um trabalho com melhor salário. Mas há um fator capaz de perturbar esta realidade feliz. Se for uma mulher, para igual trabalho realizado por um homem, o salário será diferente podendo a diferença atingir, em Portugal, os 600 euros mensais, se no exercício de lugares executivos ou de direção. Estes são, entre outros, os números revelados pelo estudo Igualdade de Género ao longo da Vida, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado pela socióloga Anália Torres, apresentado esta segunda-feira.

Mesmo com mais habilitações e melhores currículos, as mulheres são, em toda a Europa, discriminadas logo à entrada no mercado de trabalho, ganhando menos e tendo mais contratos precários. Esta situação prolonga-se ao longo de toda a carreira ativa, atingindo todos os setores de atividade e funções. Entre nós, é tanto mais dramática quanto nas profissões de baixos salários a diferença remuneratória pode atingir mais de 200 euros, sendo que os homens e as mulheres portuguesas "são dos mais mal pagos no contexto europeu".

Anália Torres sublinha a adversidade que decorre desta desigualdade: os salários mais baixos conduzem a pensões mais baixas e o risco de pobreza dispara. Mas não é só o salário: a "jornada de trabalho das mulheres é pesadíssima", sendo as mães portuguesas "as que mais trabalham na Europa", abandonando, muitas vezes, precocemente o mercado de trabalho para darem assistência aos netos, aos doentes, à família.

Malgrado as lutas e progressos conquistados, a discriminação persiste: brutal nos números que se revelam; mais subtil nas práticas sociais (trabalho, relações interpessoais) sob o véu hipócrita do discurso eticamente correto onde muitos se encobrem.

Definir o que é ser mulher passa, inevitavelmente, pela compreensão da construção histórica e social do feminino. E esta não é uniforme, nem estável. A condição de mulher depende do tempo, do lugar, do contexto onde se realiza (social, cultural, etc.) os quais delimitam um campo de possibilidades da ação. São as práticas concretas que modelam, consolidam e oficializam o que é ser mulher. Por isso, a educação e a cultura são os dispositivos críticos capazes de desmontar e alterar representações falaciosas que fazem das diferenças naturais o fundamento para uma subordinação da mulher como reprodutora e aprisionam homens e mulheres em estereótipos setorizados, parciais e pobres face à grandeza que existe em cada um poder ser o que deseja ser.

PROFESSORA COORDENADORA DO POLITÉCNICO DO PORTO