Praça da Liberdade

Muros

Um marco de cimento cunha a linha imaginária, paralelo 38, que separa as duas Coreias. Ao longo de 4 quilómetros estende-se uma zona tampão, ZDM, pejada de minas terrestres, vedações elétricas e militares. Para lá da cortina, estão dois mundos polares que tudo dizem da história da geopolítica internacional: a Coreia do Sul sob a alçada dos EUA e a Coreia do Norte sob influência inicial da União Soviética.

A Coreia do Norte, governada sob o regime ditatorial de uma dinastia de "líderes supremos", brutais e carismáticos, é um país enigma onde vivem 25 milhões de pessoas, em submissão absoluta. Kim Jong-un, como qualquer ditador, conhece o ABC da manipulação das massas: a ideologia que une e mobiliza a nação é o temor, a entrega incondicional ao líder protetor, face à ameaça de um inimigo externo, alimentada há 70 anos a Coreia do Sul/EUA. Ao longo de décadas, a tirania Kim construiu um poderio bélico imenso, com um programa nuclear que deu provas de si, em julho de 2017. Para se financiar socorreu-se do tráfico de droga e armas, da venda de tecnologia militar, explorando os canais férteis do terrorismo, contornando sanções internacionais num jogo subterrâneo de aliados.

Assim, atingiu o patamar de par, nas negociações com os EUA. Kim Jong-un quer um lugar na geopolítica da Ásia e do Mundo. Trump quer forçar uma relação privilegiada com os EUA, recolher a glória de um feito inédito, independente do preço.

Há 70 anos formou-se o Estado de Israel, num acordo territorial da ONU com base na partilha da Palestina. Qualquer consulta ao mapa de 1948 vs. o atual é elucidativo do que tem sido a sucessiva ocupação de Israel, firmada num conflito sangrento, complexo, onde a instrumentalização de fações, interesses e lideranças mesquinhas conduziu ao anular permanente de um caminho curto, mas o possível, da convivência conjunta. A Palestina é hoje a Faixa de Gaza, sitiada sob controlo do exército israelita e um conjunto de territórios fragmentados que formam a Cisjordânia, onde se ergue um muro de 700 quilómetros de arame farpado e cimento. Toda a Palestina está cercada, sem capacidade económica, humilhada, pronta para a revolta sem fim.

Trump, após armar a Arábia Saudita, rasga o acordo nuclear com o Irão e inaugura a Embaixada em Jerusalém, pondo fim aos esforços diplomáticos de Obama, demarcando-se da Europa. O seu poder de pressão permite-lhe erguer muros, onde existiam frágeis palavras. Mas a dor trespassa muros; renasce como revolta e pode ser incontrolável.

* PROFESSORA COORDENADORA DO P. PORTO