Opinião

Sustentabilidade: o desafio do presente

Há uma relação objetiva, sistémica, entre as alterações climáticas e a pobreza, a desigualdade e a guerra. O modelo económico que globalmente nos governa está centrado na acumulação de bens por uns poucos, explorando recursos até à exaustão, delapidando bens comuns sem o menor escrúpulo, poluindo e exportando detritos para quem os quer ou precisa de comprar, como se tudo fossem gavetas isoláveis.

Mas não é assim. A biosfera é um sistema aberto e complexo que não conhece fronteiras nacionais e "as alterações climáticas são o gatilho cada vez mais frequente para os conflitos no Mundo" (Obama, Climate Change Summit).

Segundo o ACNUR, só em 2015, perto de 19 milhões de pessoas foram deslocadas devido a fenómenos climatéricos cujos impactos afetam milhões em todos os lugares do planeta. Ironicamente, desde a crise de 2007/8, o Mundo está 27% mais rico e mais desigual: metade da riqueza mundial está concentrada em 1% da população e na base da pirâmide estão 3,5 biliões cada vez mais pobres. A geografia da fome acompanha a geografia da guerra e ambas não são alheias aos impactos ambientais, que se agudizam quando se é pobre e desprotegido.

A causa mais política e profunda que marca o nosso tempo - porque sistémica nas suas dimensões, global e total nos seus efeitos - é a causa da sustentabilidade ambiental, social, humana. Mais do que muros, países-tampões ou campos de controlo de migrantes económicos, importa agir localmente, coordenar políticas globais, pois "Nunca haverá muros suficientemente altos para travar os desesperados" (ibidem). Não haverá outra Terra e a sobrevivência é a questão de hoje.

Os factos, há muito denunciados pela ciência, estão aí: degelo, seca extrema, inundações...... renitentes a qualquer falsa desculpa ou interpretação.

Mais do que medidas adaptativas (que terão de ser implementadas, mitigando efeitos já incontroláveis), temos de mudar o nosso estilo de vida, a forma como nos organizamos e comportamos. E temos de fazer desta atitude uma exigência política.

PROFESSORA COORDENADORA DO POLITÉCNICO DO PORTO