Opinião

Memória e história

O Mundo não é humano apenas porque agimos no seu seio, mas porque dialogamos acerca dele, porque debatemos o sentido que se produz no seu interior (Hannah Arendt, 1981).

Comemoraram-se, este fim de semana, os 100 anos da assinatura do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial. O Mundo nunca tida vivido um conflito dessa proporção: em 1914, uma discórdia nos Balcãs (Império Austro-Húngaro vs. Sérvia), num prazo curtíssimo de dias (28 de julho-4 de agosto) alastra ao centro da Europa (a Alemanha invade o Luxemburgo, declara guerra à França, invade a Bélgica), e logo se expande numa dimensão global, envolvendo o Médio Oriente (Império Otomano), a Ásia (China e Japão), os Estados Unidos, o Brasil e parte dos territórios coloniais das potências europeias.

Nas vésperas da guerra, Europa vivia uma tensão extrema, fruto do choque entre os interesses expansionistas de diversas nações e as feridas por sarar de velhos e recentes conflitos. Um desejo latente de guerra tinha-se instalado. Ela chegou, e foi mais longa e letal do que alguém tinha imaginado. Calcula-se que morreram, desapareceram ou ficaram mutiladas cerca de 30 milhões de pessoas (civis e militares) nos diferentes campos mundiais (onde se incluem os 1831 soldados sepultados no cemitério militar português de Richebourg).

E o Mundo mudou radicalmente: quatro impérios sucumbiram (Austro-Húngaro, Russo, Alemão e Otomano) e sob os seus restos repartidos emergiram novas entidades nacionais fruto de recompensas de guerra ou de compromissos políticos decididos à mesa dos vencedores (Conferência de Paz, 1919). A Alemanha sofreu um embargo que trouxe a fome depois da guerra; pagou penalizações pesadas, perdeu territórios e recursos e toda a frustração acumulada serviu de ressurgimento do nacionalismo. E outros nacionalismos se ergueram, novos impérios, países, numa geopolítica internacional instável que marcou todo o século XX e o declínio da Europa como centro da ordem política e da "civilização".

"O presente não deve domesticar um tal passado, nem esquecê-lo" (ibid.) - compete-nos mediar o fio da memória, interpelar o seu sentido como interpelação ao futuro.

Professora coordenadora do P. Porto