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Opinião

Pensar sobre as chamas

Pensar sobre as chamas

Regressaram as chamas e com elas a perplexidade sobre a nossa incapacidade de resolvermos problemas diagnosticados, que obstinadamente persistem e atiramos para o lado num passa-culpas de meninos pequenos. Falta coordenação, organização, assertividade e profissionalismo e as consequências são dolorosas, com implicações profundas na vida das pessoas e dos territórios.

Porém, sem minorar a peso desta realidade, importa ver a floresta onde mora a árvore e percebermos que as chamas que lavram no Algarve não são uma estória única, mas parte integrante da história maior de um planeta em agonia.

Durante as últimas semanas ondas extremas de calor varreram o Planeta. O termómetro ultrapassou 35º nos países nórdicos e em vários pontos do Globo registou-se a temperatura mais alta até hoje. O calor intenso "é mais um sintoma das alterações climáticas, tal como se comprovou com a onda de calor de junho de 2017, responsável pelo incêndio de Pedrógão Grande", como destaca o climatologista Ricardo Trigo, numa entrevista ao "Jornal Público".

As ondas de calor são consequência da aceleração do efeito de estufa originado pelo aumento da concentração de gases tóxicos na atmosfera, em particular de CO2. Uma das esperanças do Acordo de Paris era reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% em 2025. Mas parece que vamos tarde, ou nem vamos, com a saída do Acordo do maior poluidor, EUA, em julho de 2017.

Os efeitos das alterações climatéricas estão a chegar mais rápido do que o previsto. Os cientistas alertam para o facto de fenómenos extremos, como as ondas de calor, já não ser reversíveis, mesmo que se controle a emissão de CO2. O equilíbrio do planeta, a sua capacidade regeneradora como ecossistema dinâmico foi afetada. É preciso algo mais: uma ação global e integrada que passe pela descarbonização imediata dos sistemas de energia. Utopia? Com o adiamento contínuo de decisões e a ignorância ou a indiferença totalitária de quem governa o Mundo a partir de Washington e Moscovo, a Terra pode mesmo deixar de ser um habitat humano.

* PROFESSORA COORDENADORA DO P. PORTO

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