Opinião

Tempos de cólera

O equilíbrio mundial que emergiu após a II Guerra Mundial e nos deu 70 anos de paz, esboroou-se. Com o fim da era bipolar da Guerra Fria, os EUA assumiram o papel de supervisor mundial e, ainda que segundo interesses próprios, constituíram um fator de estabilização da ordem liberal redefinindo regras comerciais e geopolíticas.

Com Trump o imperialismo americano perdeu a cor: o multilateralismo de cariz cosmopolita deu lugar ao bilateralismo adequado à "The Art of the Deal - o negócio, tout court". O tempo das palavras, mesmo que fingidas, morreu: os interesses económicos restritos da América, numa visão limitada de si e do Mundo, comandam.

Com o desvanecer da centralidade dos EUA na ordem mundial não proliferaram mil sóis de autonomia e democracia. Em regiões instáveis ficaram destroços de primaveras que nunca floresceram. No espaço vago instalaram-se imperialismos renascidos (Rússia e China), expandiram-se conflitos tribais, fundamentalismos e totalitarismos.

Há sintomas de crise que se vêm anunciando gerados por assimetrias e irresponsabilidades de uma globalização desregulada e disruptiva. Mas com Trump o populismo xenófobo, o nacionalismo autoritário, o ódio à diversidade étnica e cultural, o desprezo pelos valores humanos, encontraram um campo de legitimação facilitado. Independentemente das diferenças, estas posturas políticas radicam na mão de ferro do líder contra a decadência do status quo, reclamando a recuperação da grandeza perdida. Duterte incentiva o assassínio de bispos católicos; Bolsonaro faz-se ungir soberano pela cúria evangélica; Salvini revisita o "Risorgimento" da Roma Imperial, cara a Mussolini; Abascal, numa carga de cavalaria, avança à "reconquista" de Espanha.

Temos de encarar seriamente as questões críticas do presente e não as deixar nas mãos de extremistas (Sami Naïr, "El País", 9 de dezembro de 2018).

Em Paris joga-se mais do que o futuro de um presidente - um desafio à democracia representativa. Os movimentos de revolta antissistema, sem rosto, não são uma réplica direta do populismo, mas nascem da mesma insatisfação e perceção política. Le Pen e Mélenchon sabem-no.

Professora Coordenadora do Politécnico do Porto

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