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Opinião

O perseguidor implacável

O perseguidor implacável

Às vezes, os lugares-comuns são apenas lugares em que todos nos reconhecemos, mas poucas vezes encontrei sentido tão directo para um ditado popular: não bate a bota com a perdigota. É João, o perseguidor implacável. Disse que vive do apoio dos irmãos, que não tem pensão ou subsídio. E apontou a bota de pano, inchada:

- Tenho um cancro no pé. Estou incapacitado para trabalhar. Há sete anos que não trabalho.

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Tinha uma voz doce e sorria. Mas a juíza teve de ser rápida a ler a acusação, parecia uma prova dos cem metros, senão nunca mais acabava. Durante meses, João viveu colado, vigiando noite e dia, perseguidor implacável de Clara, a mulher que o deixou ao fim de quatro anos de intermitente "relacionamento amoroso". Clara foi agredida, humilhada, o Ministério Público fez aliás um resumo prévio para despachar as graves palavras do caso. Também eu me livro já dessas palavras que ouvi da juíza: "Com frequência quase diária, por vezes no domicílio comum, o arguido, movido por ciúmes, proferiu à vítima expressões como puta de merda, fodes com todos os homens, já fodeste com os homens todos da tua rua, és uma puta do bairro, uma puta da zona, vaca de merda, vai para o caralho, não prestas para nada, eu entrei na tua vida para te desmascarar." Que cansaço, não é? Mas pior é ouvir a correria inacreditável de um homem com cancro no pé. João aparece onde se espera mas também onde é menos provável, ubíquo como um deus ou um diabo. "Em data não apurada, na via pública, no contexto de discussão, o arguido desferiu uma pancada com a mão aberta na cara da vítima, assim lhe causando dores."

Noutro dia, encontrava-se Clara com uma amiga num café perto da sua casa. Ele entrou, chamando-lhe burra, estúpida. "A vítima abandonou então o estabelecimento encaminhando-se para sua casa, tendo o arguido ido de pronto no seu encalço, até que a mesma conseguiu entrar num autocarro." Mas quando saiu do autocarro Clara descobriu já lá estava, puxou-lhe o braço e ela gritou. A 6 de Setembro, João sentou-se na entrada do edifício:

- Olha a Clara, estás cá?

Clara ligava à polícia e só assim João se afastava. Uma vez, ao sair do emprego, "a vítima entrou num eléctrico que passava, tendo o arguido movido de imediato perseguição apeada. Alguns instantes depois, na zona da Graça, a vítima saiu do transporte para se escapar à perseguição. Volvidos cerca de 20 minutos, a vítima aproximou-se de um local de paragem de transporte público de passageiros, momento em que foi mais uma vez interpelada pelo arguido."

É já um filme de terror, mas foi quando João suavizou a violência que o caso ficou mesmo de assustar. Quando começou a ser brincalhão, amoroso, apaixonado, é que o pânico ocupou o coração de Clara.

- Eu não tenho medo da polícia, nem de Deus. Tenho medo é que tu me deixes.

Quando lhe suplicou para voltarem a namorar. Quando veio por trás, lhe tocou nas costas e se foi embora a rir.

- Deixa de ser parva. Eu amo-te, quero ser teu amigo.

Quando bateu na janela do autocarro em que Clara seguia. Quando lhe enviou beijos com as mãos e a boca. E se o víssemos na rua, com o ar doce que levou a tribunal, em vez do perseguidor implacável, do candidato a estatísticas mortais, talvez só víssemos um homem apaixonado.

*Jornalista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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