Opinião

O Porto e a capital do Império

O Porto e a capital do Império

D. Manuel Clemente assinalou, em entrevista a este jornal, o problema da macrocefalia de Lisboa, e o impacto que essa sobredimensão tem no Porto que, como segunda cidade que é, é a que mais sofre com essa mania. E chamo-lhe mania, porque vai muito para além da política, ou das políticas, que estão na sua origem. Esse foi, aliás, um dos temas do meu livro "Uma questão de carácter". Hoje, revisitando o que então escrevi, concluo, sem surpresa, que o abismo se acentuou desde logo porque a crise que vivemos, e que então já se vislumbrava, é propícia ao agravamento do centralismo. A propósito das sinergias, das economias de escala e de outros chavões, a administração do Estado, ao fazer cortes na despesa e nos serviços que tão mal nos presta, foi concentrando os recursos de que ainda dispõe na capital. Capital que vive, ainda, na ridícula ilusão do Império, e que olha o Porto de soslaio, uns dias com inveja, outros com despeito.

Como Presidente da Associação Comercial do Porto, uma associação de homens livres que não depende da tutela do Estado, que dá lucro, caso insólito no nosso país, e que é baluarte de cidadania, testemunho, todos os dias, exemplos desta macrocefalia que atrofia o país, que odeia o Porto e tudo que ele representa, e que é tão exagerada que acaba por abafar Lisboa, enquanto cidade.

Na distribuição de recursos e de benesses, quem está próximo do Terreiro do Paço tem sempre direito a um maior quinhão; quem está próximo consegue influenciar as decisões; quem está perto consegue obter os cargos que, depois, determinarão os destinos do país, acentuando os desequilíbrios.

Mas, também, porque me apercebo que a nós, os portuenses, não nos é sequer concedido o direito de nos pronunciarmos sobre as questões nacionais. Quando o fazemos, somos acusados de estar a meter a foice em seara alheia, e quando nos contentamos em falar de assuntos da região, somos apelidados de bairristas. Para isso contribui a "gente bem pensante da corte", que domina tudo e todos, e que desvaloriza tudo aquilo que não é dito, ou feito, na capital. Para o que contam com a cumplicidade dos "media", também eles vítima da força centrípeta que tudo arrasta para a capital. Tudo isto porque "Portugal passou a ter um corpo exangue, com uma cabeça desproporcionada e apoplética", como o disse Sá Carneiro, já em 1974, explicando que "a actividade económica foi-se transferindo para perto do único centro de decisão" porque "assim convinha à minoria privilegiada, intimamente ligada ao poder político".

Foi assim sempre ao longo da história, tem sido assim desde o 25 de Abril. Para isso contribuiu o modelo político, todo ele organizado para que o poder de Lisboa fosse indisputado. Para isso contribuiu, também, muita da classe política do Norte, que resulta desse modelo, e que sabe que a sua carreira depende, em larga medida, da sua subjugação aos interesses da capital. Tudo isso só é possível porque o Porto, em vez de se fazer voz diferente, e de representar o resto do país, também se imaginou capital. E, falhado esse processo inexequível, que morreu com o fracasso da regionalização, embrenhou-se em querelas, deixou-se ficar pelo queixume surdo, e não cuidou de se unir para fazer frente à afronta. Só assim se compreende que não se reconheça o papel único e motivador de instituições como o FC Porto. Só assim se entende que um putativo candidato à câmara da cidade critique o Metro do Porto. Só assim se percebe que a população, e em particular a sua elite, não exerça o poder que tem à sua disposição. Numa civilização em que o consumo é rei, estou à espera do dia em que um banco que faz a aquisição de outro, que era do Porto, e que obriga os seus trabalhadores portuenses a migrarem para a capital como alternativa ao despedimento, veja os portuenses acorrerem aos seus balcões para levantarem os seus depósitos. Quando isso acontecer, o dragão da cidade cantará de galo e, acredito, ninguém o calará.

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