Opinião

Os linchadores

Para gáudio de alguns abutres que empunham microfones, e de algumas hienas, cujo riso equivale a uma ameaça, passou a ser moda insultar os dirigentes políticos. Hoje, são os que estão no Governo que são vilipendiados. Amanhã, serão os seus sucessores que, defendendo ideias diferentes, estarão à mercê dos necrófagos. Os agentes de segurança têm sempre de suportar todo o género de provocações, sem merecerem, sequer, um agradecimento daqueles protegem.

Toda a gente acha mais ou menos normal que um estudante de um instituto do ensino superior insulte e provoque um governante. Afinal, se todos temos razão para andar revoltados, como podemos criticar um jovem que se limita a dizer o que nos vai na alma? Os professores, que se queixam com razão por serem vítimas de agressões físicas e verbais por parte dos alunos, sentem-se no direito de insultar o ministro que não lhes garante trabalho. Não terão razão, não estarão eles a passar por privações injustas? Durante as férias de Passos Coelho e da família no Algarve, gerou-se confusão junto à praia quando um protesto contra as portagens na Via do Infante, organizado pelo coordenador distrital do Bloco de Esquerda, levou às lágrimas a filha do primeiro-ministro. Que diabo, então as pessoas não podem manifestar-se quando as obrigam a pagar portagens? O senhor que fabricou uma fotografia para publicar na sua revista patrocinada pela Câmara Municipal do Porto, incorporando um pretenso grafito apelidando Rui Rio de FDP, puxou uma orelha ao autarca por este lhe ter retirado o patrocínio. Não será que ele tem toda a razão em se indignar por ter perdido um negócio chorudo, e por a sua liberdade ser posta em causa?

É esta a lógica dos linchadores. Se prevalecer, um dia destes um utente do metro vai puxar a orelha ao secretário-geral da CGTP durante uma greve. Um dia destes, uma juventude partidária vai incomodar Francisco Louçã durante um dos seus fins-de-semana em família. Um dia destes, os paizinhos vão fazer uma espera aos professores quando eles organizarem um plenário que interrompe as aulas das criancinhas. Um dia destes, os estudantes do ensino superior vão ser agredidos durante uma das suas estúpidas praxes. Um dia destes, aqueles que, para captar um instantâneo, se esquecem que a sua função se deve limitar a cobrir os acontecimentos, e não passa por incendiar as situações, vão ter um problema. Nesse dia, deixarão de acusar os agentes de segurança de autoritarismo. Vão acusar esses agentes de inércia, de inépcia, de falta de coragem.

É assim este nosso país de linchadores. Um país onde se acha normal, e se dá relevo nos media quando, em pleno tribunal, onde devia estar recatado até ser julgado, um arguido mediático é abordado e insultado por um cidadão que, à frente das câmaras, consegue o seu momento único de glória. Um país onde se acha normal que a imprensa tenha conhecimento antecipado de que antigos governantes vão ser sujeitos a buscas no seu domicílio, e onde a ministra da Justiça não hesita em fazer declarações sobre o caso, não se incomodando com a quebra do sigilo, mas garantindo que o clima de impunidade acabou, como se isso dependesse das suas ordens, como se alguém acreditasse que as suas palavras mais não são do que achas na fogueira da inquisição popular.

Este é um país de linchadores que se infiltram na multidão ordeira para perturbar a ordem pública e para agredir polícias. De jornalistas que esquecem os princípios éticos e o código deontológico da sua profissão. De governantes que não têm sentido de Estado e transportam para o poder os seus ódios de estimação.

Eu sei que é uma minoria. Sei que a maioria silenciosa dos portugueses está revoltada mas reage com civismo. Sei que a esmagadora maioria dos jornalistas tem a noção plena da sua missão. Sei que há políticos que valorizam as questões de princípio e estão disponíveis para defender os direitos, as liberdades e as garantias dos seus adversários. O problema é que, em democracia, por cada pessoa intolerante, são necessárias dez pessoas tolerantes para defender a liberdade. Infelizmente, temo que esse rácio de segurança esteja em risco.