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Opinião

Os culpados disto tudo

Os culpados disto tudo

Anda por aí uma cartilha. E não é futebolística, é política! Repetida até à exaustão, por gente mais ou menos credível. Mas que, no fundo, procura fazer de nós parvos.

A cartilha tem uma tese: a crise por que passámos e a crise que, segundo eles, inevitavelmente virá (o famoso Diabo!) devem-se aos funcionários públicos, que são, no fundo, os "culpados disto tudo". Uma forma engenhosa de nos tentar fazer crer que, afinal, a culpa não é daqueles que, há décadas, são os "donos disto tudo"...

Assim, e se o(s) Orçamento(s) do Estado volta(m) a honrar algumas das cláusulas contratuais que sucessivos governos tinham estabelecido com os funcionários públicos, logo aparecem os "cartilheiros" a dizer que não pode ser, que aí está o despesismo, a vida acima das posses. Mas os argumentos são incoerentes com o que defendem. Dizem-se "genuinamente" preocupados com o agravamento das contas públicas. Mas, ao mesmo tempo, são defensores, como "boa medida de gestão", da deslocalização da sede de empresas para paraísos fiscais, subtraindo às contas públicas portuguesas milhões de euros de receita. Impõe-se um imposto adicional a empresas com lucros anuais superiores a 35 milhões de euros. Aqui-d"el-rei que está em causa o princípio da estabilidade fiscal e isso é um roubo às empresas. Mas quem o diz são os mesmos que defenderam cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões e reformas, ao mesmo tempo que criaram uma sobretaxa de IRS... Ou que enterraram milhares de milhões de euros para salvar bancos e os seus acionistas.

Inteligentemente, os "donos disto tudo" procuram arrastar para a sua causa os trabalhadores do setor privado, colocando-os contra os "parasitas" dos funcionários públicos que "sugam o seu suor"...

Mas esse canto da sereia é facilmente desmontável. Fruto da atual correlação de forças política, o foco foi colocado no "sacrifício" de grandes lucros e no aumento dos rendimentos do trabalho. Que o Governo só pode implementar ao nível dos funcionários públicos, podendo a Assembleia da República legislar em termos de fixação do salário mínimo. E, efetivamente - e isso é o que verdadeiramente preocupa os "donos disto tudo" -, há um efeito de contágio nestas medidas. É que, diz a História, estas medidas tomadas no setor público (e muitas outras poderiam já ter sido tomadas!) acabarão por beneficiar os trabalhadores do setor privado, quer em termos de salários, quer em termos de duração dos horários de trabalho.

* ENGENHEIRO

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