Opinião

A cassete

Hoje, tenho de pedir desculpa às leitoras e aos leitores, mas tenho de dar um cunho (ainda) mais pessoal a esta crónica. Porque a vou basear em factos que se passaram comigo há alguns anos, mas que demonstram que, apesar de tudo, há facetas da história que se repetem.

Na sequência das eleições autárquicas de 2001, na Câmara do Porto viveu-se uma situação curiosa. A coligação PSD/CDS ganhou as eleições, com seis eleitos, tantos quantos os eleitos pelo PS. A CDU, por seu turno, elegeu-me como vereador. Nas autarquias, ao contrário do que acontece nas eleições nacionais, o presidente da Câmara é o cidadão que encabeça a lista mais votada, tendo ou não maioria absoluta. O que significou que o presidente da Câmara eleito foi Rui Rio. Perante esta situação, Rui Rio propôs que o vereador da CDU assumisse um pelouro. O que a CDU aceitou, estabelecendo como condições a necessária relevância desse pelouro (no caso, ficou o Ambiente, a Reforma Administrativa e a presidência dos SMAS) e a disponibilização de meios técnicos, humanos e financeiros que permitissem realizar um trabalho positivo. Por último, que não em ordem de importância, que o vereador da CDU manteria a sua total independência e fidelidade ao programa político que tinha apresentado aos eleitores - uma situação muito diferente da que se vive atualmente, onde o PS, para aceitar pelouros para parte dos seus eleitos, se comprometeu, por escrito, a cumprir o programa do presidente da Câmara.

Essas condições foram aceites e assim se trabalhou durante todo esse mandato. Com muitos e naturais choques entre a maioria e o vereador da CDU (e vice-versa), com necessidade de negociação de muitas posições. E com impossibilidades de consenso sobre muitas matérias, o que levou a votações contrárias por parte de vereadores com pelouros. Sendo que, nestes casos, o PS sempre deu a mão a Rui Rio para viabilizar as propostas que o vereador da CDU não caucionava. Como foram os casos, para citar apenas os mais relevantes, da não aprovação, em sede da Câmara, do projeto de requalificação da Avenida dos Aliados ou da aprovação do modelo de Sociedade de Reabilitação Urbana.

Em 2005 houve, novamente, eleições autárquicas. O PS, como é costume e dado que o trabalho que desenvolveu ao longo dos quatro anos não o honrou, decidiu ir buscar uma "cara nova" para que o eleitorado não julgasse o que foi feito e entrasse na onda única da expectativa do que vai ser feito. Assim, a escolha recaiu sobre Francisco Assis. Que de imediato lançou a ideia "revolucionária" de "coligação de esquerda" para derrotar a direita. Eu próprio cheguei a reunir com Francisco Assis para analisarmos essa possibilidade, mas rapidamente ficou claro que o PS não queria discutir um programa de esquerda; queria, isso sim, uma coligação aritmética que lhe permitisse alcançar a presidência da Câmara para prosseguir a sua própria política - pensando que a CDU o aceitaria a troco de uns pelouros e de uns lugares na estrutura municipal. Inviabilizada esta coligação, o ataque de Assis foi o previsível: "não há coligação de esquerda por culpa da CDU"; "com a agravante de a CDU ter sido, durante o mandato, a muleta da coligação PSD/CDS, caucionando as políticas de Rui Rio" (de quem diziam coisas que Maomé não disse sobre o toucinho...).

Os resultados são conhecidos: Rui Rio conquistou a maioria absoluta (tirando um vereador ao PS), o que lhe permitiu arreganhar as unhas e levar a cabo uma série de medidas, que considero negativas para a cidade, que estiveram contidas durante o mandato em que não teve maioria absoluta.

Ese venho recordar esta experiência é porque me tenho fartado de rir, quando agora vejo o que se passa no PS. Por um lado, pela repetição do folhetim da "viragem à esquerda do PS", que, desde que me conheço, sempre foi enunciado por este partido antes das eleições para, depois das mesmas, fazer o seu contrário. Mas também, pela cambalhota de Francisco Assis. Que tanto me criticou por ser a "muleta de Rui Rio", de estar "coligado com a direita" e, agora, é o paladino da coligação do PS com o PSD de Rui Rio.

De facto, apesar da "cassete" do PS com o discurso de esquerda sempre que há eleições, a verdade é como o azeite. Mesmo que muitos insistam em só a ver quando está à tona.

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