Opinião

A faca, o queijo e a mão

A faca, o queijo e a mão

Na minha vida, votei dezenas de orçamentos municipais. São momentos politicamente exigentes em que se colocam duas situações.

Quando há maioria absoluta, o trabalho é menor, dado que quem a detém impõe as regras e fica surdo às propostas dos outros eleitos. Mas, quando não há maiorias absolutas, aí as regras do diálogo democrático sobressaem, com muita negociação em que aqueles que não detêm o poder procuram influenciar as propostas constantes dos orçamentos e aqueles que o detêm procuram não os alterar significativamente.

Por isso considero que foi um erro do BE a sua votação contra o OE, antes de o mesmo baixar à discussão na especialidade. Porque, ao fazê-lo, fragilizou-se. Seria mais inteligente viabilizar a passagem à especialidade e, aí, se não conseguisse fazer aprovar as suas propostas e considerasse mau o resultado final, votaria contra. Neste processo marcou pontos o PCP, e essa é uma das razões para este descabelado ataque ao seu Congresso (onde me encontro): desviar atenções do essencial e procurar reverter a imagem de seriedade e de capacidade de diálogo e de luta que evidenciou...

Na discussão do Orçamento para 2021 da Câmara do Porto também se passou um caso estranho. Sem maioria absoluta na Assembleia Municipal, Rui Moreira teve de dialogar com os outros partidos para integrar os seus contributos no documento, procurando, assim, assegurar a aprovação. Deu-me gozo, em anos anteriores, ver aprovadas propostas que apresentámos, como a criação de um fundo para o apoio ao movimento associativo da cidade ou a redução em 10% do IMI para habitações próprias. Este ano o processo seguia o mesmo caminho. Mas eis que, antes de se conhecer a proposta final de Orçamento, o PS veio declarar que viabilizaria o mesmo, votando a favor ou abstendo-se consoante as suas propostas fossem, ou não, aceites! Resultado: Rui Moreira deixou de se preocupar com as negociações e não incluiu as propostas de nenhuma força da oposição. É o que se chama ter a faca e o queijo na mão e... cortar a mão!

Engenheiro

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