Opinião

Cidadãos com deficiência

Cidadãos com deficiência

Por mais que tente, por maior sensibilidade que tenha, a verdade é que não consigo colocar-me na pele dos cidadãos com deficiência e sentir aquilo pelo qual passam no seu dia a dia. Apenas eles e os seus familiares mais próximos conhecem os obstáculos que, quotidianamente, têm de enfrentar para viver num mundo que não está pensado para os incluir.

Foi isso que senti, mais uma vez, quando preparei a sessão extraordinária da Assembleia Municipal do Porto, convocada por iniciativa do PS, que na semana passada analisou o tema "As pessoas com deficiência e a sua Provedoria".

Ciente de que o tema da extinção (errada) da Provedoria do Deficiente por parte de Rui Moreira não poderia monopolizar o debate esquecendo os reais problemas destas pessoas, reuni-me, juntamente com outros meus camaradas, com vários dirigentes de associações de cidadãos com deficiência. Que, com conhecimento de causa, referiram diversas questões que mostram como o Porto (e não só) não é, para eles, uma cidade amigável nem inclusiva. Referindo diversos aspetos que, estando mesmo à frente dos nossos narizes, temos dificuldades em descortinar.

Como o facto de os autocarros terem acesso a cadeiras de rodas pela porta central, mas os validadores dos bilhetes estarem junto à porta da frente - o que implica que, se o autocarro está cheio, têm de pedir a outro passageiro o favor de ir validar os seus títulos. Ou que, nas carruagens do metro, o local destinado às cadeiras de rodas é do lado oposto ao das portas, o que implica, muitas vezes, que para conseguirem sair, vários passageiros têm de sair, também, para depois voltarem a entrar (situação que os confrange e que seria minimizada se o aparcamento se fizesse do lado das portas). Ou o facto de o acesso à loja do cidadão, nas Antas, se ter de fazer, para quem se desloca em cadeiras de rodas, por uma outra entrada, de acesso ao edifício da torre das Antas - facto não assinalado à entrada. Ou que os aviões utilizados na chamada "ponte aérea da TAP" (que ligam Lisboa ao Porto) não permitem o transporte de cadeiras de rodas elétricas, ao contrário do que antes acontecia. Cadeiras essas que podem custar quase 20 mil euros, comparticipados pela Segurança Social no âmbito das designadas "ajudas técnicas" que muitos desconhecem e cuja tramitação burocrática exige muito corrupio por diversos serviços da administração. Para além dos postes, das papeleiras, das esplanadas, dos painéis publicitário, das rampas que não existem ou estão mal dimensionadas, dos semáforos sem sinais sonoros (ou indicações em Braille para invisuais). Ou dos edifícios públicos sem acessos e, em particular, das habitações municipais que se transformam em autênticas prisões para estes cidadãos.

Foi por isso uma mais-valia para a Assembleia Municipal o facto de a CDU ter tido, em sua representação, o dr. Bruno Valentim, atleta paralímpico medalhado que, em discurso direto, relatou com conhecimento de causa aquilo por que passa na sua "teimosia" de querer ser um cidadão que, apesar das diferenças, tem os mesmos direitos do que os outros na fruição da cidade. E da vida.

*ENGENHEIRO