Opinião

Fontainhas: a história repete-se

Fontainhas: a história repete-se

As Fontainhas voltaram a ser notícia. E pelas piores razões: a sua escarpa manifesta, novamente, sintomas de instabilidade (obrigando ao encerramento da marginal) e os moradores de alguns dos bairros da sua encosta estão, outra vez, ameaçados de despejo.

Lendo as notícias, rebobino a memória 17 anos para trás. Foi exatamente em dezembro de 2000 que se registou uma grande derrocada na escarpa das Fontainhas, que levou ao desalojamento de mais de duas centenas de pessoas. Consequência do terrível inverno desse ano, em que choveu ininterruptamente durante semanas, fazendo com que, numa imagem feliz de uma amiga, "até as pessoas ganhassem musgo"...

Calcorreei os bairros (ou o que sobrava deles) daquela encosta - Tapada, Maria Vitorina, Capela. Acompanhando os moradores, realojados maioritariamente e de emergência nos quartéis da serra do Pilar e da Circunvalação, na sua luta por uma habitação condigna.

Realojamento que foi conseguido, no essencial, em bairros municipais. Mas, a partir dessa data, é uma sucessão de promessas não cumpridas e uma inércia na aplicação de soluções para a consolidação da escarpa. Situação que põe em causa a competência do município ou, pelo menos, a sua vontade política de, efetivamente, resolver os problemas.

Recordo a tentativa de constituição de uma cooperativa por parte dos moradores que ainda residiam no local, a que se juntaram outros entretanto realojados, e que permitiria construir dezenas de fogos nas proximidades. Cooperativa que, face ao boicote de Rio, fracassou, tendo os terrenos, municipais, sido transferidos para outra cooperativa, que aí construiu habitações para a classe média. Recordo que ainda hoje existe um enorme buraco na parte poente do passeio das Fontainhas, impedindo a sua ligação à zona dos Guindais. Recordo incêndios ocorridos no local, situação originada pelo facto de habitações que ficaram devolutas serem utilizadas por toxicodependentes. Recordo a derrocada que aconteceu na base da escarpa, junto à marginal, afetando diversos edifícios, designadamente aquele que albergava o estabelecimento ironicamente designado "Baixa a Tola". E recordo que o orçamento da Câmara chegou a ter inscritas verbas de mais de um milhão de euros para consolidação da escarpa, depois retiradas incompreensivelmente.

Como é, assim, possível que passados 17 anos a escarpa não esteja consolidada? Ou que casas cujos moradores foram realojados por as mesmas não terem condições estejam novamente ocupadas, com rendas muito mais elevadas?

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A água do Douro não passa duas vezes debaixo das pontes. Mas a história da escarpa das Fontainhas repete-se, 17 anos depois...

* ENGENHEIRO

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