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Opinião

Há números que são como punhais

Há números que são como punhais

Para um licenciado em engenharia, os números, para além do gozo que dá o seu manuseamento, são realidades objetivas. Mas, quando quantificam determinados fenómenos, os números podem ser interpretados e motivo de conclusões completamente distintas. Há, até, quem "torture" os números de forma a que eles (com)provem "conclusões" anteriormente tiradas...

Mas há números que, mesmo "torturados", não permitem conclusões distintas sobre o seu significado. É o que se passa relativamente a números relacionados com os problemas da habitação no Porto e que foram analisados na sessão extraordinária da Assembleia Municipal que se realizou há uma semana por iniciativa da CDU.

De acordo com os dados da empresa municipal de habitação do Porto (Domus Social), durante o 1.º semestre de 2017 foram entregues 168 casas a moradores carenciados. Um número positivo, dado que 168 famílias que viviam em habitações degradadas e/ou em carência económica para suportar o custo da habitação passaram a ter uma habitação digna e a pagar uma renda compatível com o seu rendimento. Mas, quando analisámos os pedidos de habitação que foram registados na mesma empresa, a nossa satisfação só pode diminuir! De facto, no mesmo período foram instruídos 417 pedidos de habitação que, depois de analisados (e há critérios de análise restritivos que fazem com que reais necessidades de habitação não sejam contempladas - por exemplo, apenas famílias que vivem no Porto há mais de 5 anos é que têm direito a habitação) foram selecionadas mais 151 famílias, que passaram a ter direito a habitação, ficando a aguardar disponibilidade de casa compatível. Pelo que, durante um semestre, foram atribuídas 168 habitações, mas passaram a estar à espera de habitação mais 151 famílias. O que significa, em termos práticos, que em 6 meses as famílias à espera de habitação diminuíram, apenas, em 17! Número que ganha ainda maior relevância quando sabemos, de acordo com os números publicados pela Domus Social, que há mil famílias em lista de espera para atribuição de habitação social!

Estamos, assim, perante um problema irresolúvel com o atual quadro de habitação social disponível no Porto. O que implica, em paralelo com outras medidas mitigadoras, a construção de mais habitação social. O que exige o apoio do Estado, a quem compete garantir o constitucional direito à habitação, bem como um novo paradigma de construção - que passa por pequenos núcleos disseminados pelo tecido urbano.

É que, tal como as palavras, há números que são como punhais! Principalmente quando conhecemos as caras daqueles que, tão impessoalmente, os números representam...

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