Opinião

A utilidade do voto

As eleições de 2015 puseram fim a um mito: as legislativas não visam eleger o primeiro-ministro, mas sim deputados. Deste modo, caiu também a ideia de "voto útil", utilizada há décadas pelo PS e pelo PSD para tentar concentrar em si os votos. Numa lógica que, favorecendo a bipolarização, procurava fazer crer que não valia a pena votar nos outros porque o que interessava era "ganhar" as eleições para ter o primeiro-ministro...

Com base nesta tese, muitas dezenas de milhares de eleitores não votavam em quem consideravam melhor, mas sim "útil", no "mal menor" que podia "ganhar" as eleições...

Para mim, o conceito de voto "útil" é diferente, sabendo que aquilo que me é útil é eleger deputados que apresentem um programa em que me revejo. E que, depois de eleitos, vão cumprir esse programa e não me envergonharão, servindo-se dos seus cargos em proveito próprio e não dos que os elegeram. Para além de que o meu voto não se esgota nas eleições, procurando criar condições para que, no período entre eleições e para além da Assembleia da República, as condições para a concretização desse programa sejam melhores.

No atual contexto, para um eleitor verdadeiramente de Esquerda, coloca-se a questão da utilidade do seu voto para que o país continue a andar para a frente ou para que se perca aquilo que foi alcançado nos últimos quatro anos. E estando, pelo que se vê e se sente, completamente afastada a possibilidade de a Direita ter maioria, os apelos escondidos do PS à maioria absoluta mostram a vontade clara deste partido de ficar com as mãos livres para fazer o que é habitual fazer e não aquilo que tem sido feito por força da atual correlação de forças. O exemplo da vergonhosa posição do PS sobre a legislação laboral (onde se aliou a PSD e CDS agravando ainda mais o pacote laboral de Passos Coelho e Portas!) mostra bem esse perigo. O que faz com que o voto útil dos eleitores de Esquerda que normalmente votam PS, seja, de facto, à Esquerda. Impedindo a maioria absoluta do PS e mostrando que é à Esquerda que o PS tem de governar. E, já agora, não associando o seu voto a deputados que, todos o sabemos, gostam é de malhar na Esquerda e querem é facilitar a gestão privada da saúde. Os mesmos que defendem interesses do patronato em matéria laboral, não honram os compromissos assumidos com os professores, fazem acordos de "descentralização" com a Direita, colocam a regionalização na gaveta e se abstém na recomendação para que a obra de José Afonso seja considerada de interesse nacional.

Será que aqueles que votam útil no PS para combater a Direita terão, agora, a capacidade de tornar útil o seu voto para dificultar ao PS a execução das políticas de Direita? Acompanhando, desse modo, a utilidade que dou ao meu voto?

*Engenheiro