Opinião

"O Partido"

Sou dos que sofrem quando assistem à saída de alguém do meu partido - o PCP. Porque acho, sempre, que nunca seremos demais para concretizar o projeto que nos une. E porque fico, muitas vezes, com a sensação de que em vez de darmos a mão a pessoas em processo de dúvidas e hesitações (tantas vezes legítimas e compreensíveis neste complexo processo de construção de uma nova sociedade), utilizamos essa mesma mão para os empurrarmos definitivamente. Muitos deles, pelo percurso que depois fazem (ou que já vinham a fazer no interior do próprio partido...) dão razão a esse afastamento e, confesso-o, fazem-me pensar: ainda bem que saíram! Outros há que, depois, vejo a prosseguirem carreiras políticas noutros partidos, negando, com veemência, o que antes defendiam, mas movendo-se, apenas, por ambições pessoais e carreirismo - o que os desmascara. Outros, afastando-se, mantêm o respeito pelo partido, pelos seus ex-camaradas e por si próprios.

Não obstante João Semedo se ter afastado do PCP e ingressado (e dirigido) o Bloco de Esquerda, conseguiu manter esse respeito e continuou a ser respeitado por muitos dos seus antigos camaradas - e por isso se viram tantos no seu funeral. Eu fui um deles. Não esqueço o percurso conjunto que fizemos, onde muitas vezes tivemos de articular posições pelas tarefas que desempenhávamos - ele à frente do Setor Intelectual do Porto e eu com responsabilidades ao nível dos estudantes comunistas. Não esqueço que, em 2001, o João Semedo, já em processo de afastamento, participou numa iniciativa pública de apoio à candidatura da CDU à Câmara Municipal do Porto que eu encabeçava. Por isso, apesar da sua saída do PCP, mantivemos, sempre, uma relação de cordialidade e de consideração mútuas. Recordo, particularmente, as horas que, depois dos debates que protagonizávamos na RTPN, ficávamos a falar à porta dos estúdios do Monte da Virgem. Sobre a política, os nossos partidos, o nosso Benfica, as nossas vidas e os amigos comuns. Tive o prazer de receber a Medalha de Ouro da cidade do Porto ao mesmo tempo que ele e de nos sentarmos juntos. Tal como aconteceu na tomada de posse da atual Assembleia Municipal do Porto - onde fiquei comovido por o ver (aparentemente?) bem de saúde e otimista quanto à possibilidade de exercer o cargo para que tinha sido eleito. Não esqueço a consideração que teve para comigo ao comunicar-me, prévia e pessoalmente, que teria de renunciar ao seu mandato.

Mas o que mais recordo (para além do percurso político comum) é o facto de o João Semedo se referir nas nossas conversas ao PCP como "o Partido". Como os comunistas sempre o fazem...

ENGENHEIRO