Opinião

Tropa outra vez?

No passado dia 30 de julho estava a almoçar quando apareceu no restaurante um colega de faculdade, com dois filhos, que teve a amabilidade de me fazer companhia. Da conversa fiquei a saber que um dos "miúdos" tinha optado por frequentar a Academia Militar, influenciado por um familiar, também militar, e pela vida. A conversa trouxe-me recordações, distantes, dado que, no dia seguinte, fazia 29 anos do dia em que me apresentei no então chamado RIF/DT - Regimento de Infantaria de Faro/Destacamento de Tavira para cumprir o Serviço Militar Obrigatório. Nessa incorporação para o então designado CEOM - Curso Especial de Oficiais Milicianos apresentamo-nos, para além de muitos outros, sete dos 57 licenciados em Engenharia Mecânica de 1988 pela FEUP (na altura as mulheres não iam à tropa...), sendo que outros tinham sido incorporados antes. Estava a trabalhar há praticamente um ano e ganhava, na altura, 90 contos (450 euros, mas bem mais a preços correntes...) que permitiam que já tivesse "juntado os trapinhos". Como soldado cadete, passei a ganhar creio que 2,9 contos - mas com direito a farda, comida e "cama lavada". Depois de 3 meses de recruta e de especialidade, lá passei a Aspirante a Oficial Miliciano, ficando colocado na Escola Prática de Serviço de Material, em Sacavém, às portas de Lisboa - o meu salário (que se chamava pré) passou a 30 contos (150 euros). Foi o que recebi durante o ano que fiquei por Sacavém.

Durante esse ano, apesar das aulas que dei de organização e gestão da produção e da responsabilidade pela biblioteca e pela informática, sobressaiu o excesso de tempo de ócio (facilitador dos vícios) e a sensação de que podia ser mais útil ao país (estamos, no meu caso, a falar de centenas de licenciados!) e com menos sacrifícios pessoais.

Recordo isto tudo, não apenas porque nesse almoço desfiei estas memórias (e todos sabem que quando "ex-tropas" se juntam as conversas da "vida militar" não acabam...), mas principalmente porque voltou a estar na ordem do dia a reposição do Serviço Militar Obrigatório (SMO) - embora não deixe de ser curioso que os que agora questionam o fim do SMO sejam aqueles que lhe puseram fim, o que põe em causa a seriedade (e a oportunidade?) da base do debate... De qualquer modo, como comunista que era (e sou) achei que tinha de ser coerente com a posição do meu partido de defender o SMO, razão pela qual nada fiz para me tentar "livrar" (na altura o que estava a dar era a "objeção de consciência"). Continuo a pensar, sabendo que não é popular, que, em termos estratégicos de país, o SMO é importante. Mas em moldes completamente diferentes daqueles que cumpri: com menor duração, melhor produtividade e mais consciencialização da importância da soberania nacional.

*ENGENHEIRO