Opinião

O Aleixo não se pode repetir!

O Aleixo não se pode repetir!

É hoje evidente que, afinal, e ao contrário do que prometia Rui Rio, a demolição do bairro do Aleixo não acabou com o flagelo do tráfico de droga, que se transferiu para outros locais das redondezas.

A localização do novo supermercado da droga era previsível. Pouco a norte do Aleixo há a maior concentração de bairros municipais do Porto, com Lordelo, Pinheiro Torres, Pasteleira (velho e novo) e Mouteira a estenderem-se num contínuo urbano. Bairros que têm características urbanas e arquitetónicas que facilitam o negócio: algum efeito de ilha urbana, com poucos atravessamentos e percursos labirínticos no seu interior (como sucede no Pasteleira "Nova"), facilitando o esconderijo e a fuga em caso de necessidade. A que se juntam agregados familiares muito vulneráveis em termos económicos e sociais, com maior propensão para aderirem às pequenas tarefas de apoio ao tráfico (armazenagem, esconderijo, vigilância).

É, assim, uma dor de alma passar agora pelo interior destes locais, transformados em coutada do tráfico e do consumo à vista de todos. Sendo que quem mais sofre as consequências desta situação são a imensa maioria das famílias que lá residem e que nada têm que ver com o tráfico nem com o consumo de droga.

Impunha-se perante esta situação uma ação enérgica por parte dos poderes públicos, tentando matar à nascença o fenómeno. Mas, infelizmente, não é isso que está a acontecer, repetindo-se o que aconteceu no Aleixo, que foi votado ao completo abandono até chegar a uma situação incontrolável.

Creio, no entanto, que ainda vamos a tempo! Mas, para tal, a Câmara do Porto deve abandonar a sua posição de passividade, em que procura sacudir a água do capote e reduzir o problema a um caso de Polícia. Naturalmente que é fundamental que a Polícia intervenha, mantendo no local permanentemente (pelo menos numa primeira fase) efetivos. Mas o policiamento tem de ser acompanhado por intervenção municipal, mostrando aos moradores que a sua Câmara não os abandona. Assegurando a limpeza exemplar do espaço, requalificando os espaços envolventes (o que poderá passar pela criação de novos arruamentos e pela construção de equipamentos sociais), reforçando a iluminação, impedindo a proliferação de grafítis. Trabalho que deve ser acompanhado por verdadeira intervenção social, envolvendo os moradores e as suas associações em atividades que contribuam para o aumento da sua autoestima e garantam alternativas de ocupação aos mais vulneráveis.

Não será condição suficiente, mas será, com certeza, condição necessária para não deixarmos, como aconteceu no Aleixo, uma parte significativa do território e da população da cidade abandonados aos interesses do tráfico de droga.

*Engenheiro