Opinião

Obrigado, Armando Castro!

Obrigado, Armando Castro!

Talvez muitas pessoas não saibam quem foi Armando Castro, sabendo, contudo, quem é um qualquer "Armando" que jogue na 2.ª divisão ou participe num qualquer concurso televisivo. O que, por si só, é uma prova daquilo com que nos procuram "distrair".

Por isso, foi em boa hora que o PCP, seu partido de sempre, decidiu homenageá-lo por altura do centenário do seu nascimento. É que ele foi, sem dúvida, uma das figuras mais relevantes da intelectualidade nacional. Participei, no sábado, no início das comemorações, numa sessão em que intervieram o professor José Manuel Varejão, atual diretor da Faculdade de Economia, e Jerónimo de Sousa. E onde foi inaugurada uma exposição sobre a sua vida e obra que estará patente na Biblioteca Almeida Garrett durante um mês.

Lidei pouco com Armando Castro, embora o tenha substituído na Assembleia Municipal do Porto em 83. Mas conhecia-o como um dos professores de referência da Universidade do Porto, ao lado de Ruy Luís Gomes e José Morgado, bem como a relevância da sua obra científica, designadamente nas áreas da economia, da investigação científica e das ciências sociais.

O que mais me impressionou na sessão de sábado foi a forma extremamente difícil como fez todo o seu trabalho de investigação. Armando Castro, que tinha os cursos de Direito e de Ciências Político Económicas, foi impedido de lecionar no ensino público. Por isso, e como o próprio referiu, "só tinha uma solução profissional, que era advogar". "Advogar nas condições trágicas que era ter sempre o mínimo de trabalho possível para poder continuar as minhas investigações. Às vezes, descia abaixo desse mínimo e tinha problemas de subsistência económica. Quando tinha mais um bocado que fazer, vivia amargurado, porque não tinha tempo para os meus trabalhos". Do mesmo modo, impedido de frequentar bibliotecas das universidades, fotografava livros (e, na altura, não era com telemóveis), revelava as fotos e copiava os textos para cartões para poder trabalhar.

Foi, assim, durante 30 anos! O que mostra a essência do salazarismo, que abdicou de um Investigador deste nível devido às suas ideias. Bem como a fibra e as convicções de Armando Castro! Felizmente, com o 25 de Abril, foi convidado para professor e diretor da Faculdade de Economia. Sendo, posteriormente, nomeado professor catedrático, tendo-se distinguido, também, pelo papel que teve na dinamização do Grupo de Ciências Sociais da Faculdade.

O facto de, quando se jubilou, ter sido convidado para proferir a "oração de sapiência" da sessão de abertura do ano - demonstra que a Universidade do Porto reconhecia o seu mérito e, de alguma forma, se penitenciava pelo facto de, durante mais de 30 anos, lhe ter fechado as portas...

* ENGENHEIRO

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