Opinião

Manuel Baganha, homem íntegro

Manuel Baganha, homem íntegro

Esta é uma crónica que podia ter escrito há um ano mas que se mantém atual. De facto, foi em 2015 que, em boa hora, a Universidade do Porto decidiu homenagear o professor Manuel Duarte Baganha, considerando-o "Figura eminente" e desenvolvendo um diversificado programa que pretendeu realçar algumas das suas facetas.

ive a honra de ser convidado para intervir na conferência que procurou realçar a sua Intervenção cívica, juntamente com Augusto Santos Silva, Manuela de Melo e Ricardo Figueiredo. Conferência que se realizou há um ano, no átrio da Câmara Municipal do Porto e que foi presidida por Rui Moreira.

Na intervenção que na altura proferi destaquei o papel que o prof. Manuel Baganha desempenhou enquanto presidente da Assembleia Municipal do Porto. Cargo que desempenhou entre 1990 e 2001 e onde o conheci quando, em 1994, fui eleito novamente para este órgão autárquico, depois de uma ausência motivada pelo cumprimento do serviço militar obrigatório.

Numa altura em que a Assembleia Municipal era dominada pelo PS, pós-primeiro mandato de Fernando Gomes, que sozinho contava com dois terços dos deputados, ficando o PSD, o CDS e a CDU, somados, resumidos a um terço... O que poderia significar um posicionamento magnânimo do partido maioritário mas que, antes pelo contrário, se traduziu numa tentativa de esmagamento, com o argumento de que "se o povo votou em nós, nós é que temos razão e não precisamos de auscultar as vossas opiniões"... Sendo que o PSD assumiu uma política de "perdido por cem, perdido por mil", adotando uma posição de sucessivos incidentes processuais que visavam obstaculizar o normal funcionamento da assembleia.

Foi nestas condições difíceis que emergiu o papel de Manuel Baganha como presidente da Assembleia Municipal. Colocando-se acima do partido pelo qual tinha sido eleito (aliás como independente, dado que só mais tarde aderiria ao PS), refreando as tentações totalitárias do mesmo e impondo regras que permitissem o normal e democrático funcionamento da Assembleia. Como tive a oportunidade de referir há muitos anos, podíamos discordar das suas posições, mas tínhamos a certeza de que as tomava porque estava convencido da sua justeza e sem o menor objetivo de prejudicar quem dele discordasse.

Essa característica de homem íntegro fez crescer o respeito e a admiração que por ele sentia, sentimento partilhado pelos dois outros deputados municipais da CDU, Jorge Sarabando e Gaspar Martins. Consideração que se reforçou ao longo dos anos e que extravasou o relacionamento meramente institucional. Com a constatação de que o professor Manuel Baganha, para além de íntegro, tinha a humildade dos grandes, que lhe permitia "esconder-se" da ribalta, embora não esquecendo a sua responsabilidade de presidente da Assembleia Municipal do Porto. Como lhe chamou Manuela de Melo, numa síntese feliz: o homem invisível!

Foi este reconhecimento, naturalmente partilhado por todos os palestrantes, que fez com que, em 2002, em nome da CDU, lhe tenha comunicado (numa altura em que eu próprio já tinha aceite pelouros de Rui Rio), que estaríamos disponíveis para apoiar a sua recandidatura a presidente da Assembleia Municipal do Porto. Cuja reeleição estaria garantida com o apoio do seu partido, o PS. Que, infelizmente, não o apoiou, dado que sempre lidou mal com a forma independente como exerceu funções, tendo optado por viabilizar a eleição de um representante do CDS...

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Creio que foi com muita mágoa que recebeu esta "facada", que não merecia. Mas esta iniciativa da Universidade do Porto, a que, na dimensão política, se associaram membros de diversos partidos, constitui o justo reconhecimento de quem soube interpretar superiormente o cargo institucional de presidente da Assembleia Municipal do Porto.

* ENGENHEIRO

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