Opinião

Não há, de facto, Festa como esta!

Não há, de facto, Festa como esta!

Escrevo este artigo em plena Festa do Avante. E para mim, como para dezenas de milhares de pessoas, comunistas ou não, participar na Festa tornou-se um ritual - que não uma rotina porque a Festa é diferente todos os anos -, pela qual, tal como as férias ou o Natal, esperamos ansiosamente.

Uma Festa que vai já na sua 36.ª edição, e tenho o orgulho de ter participado em 34 delas, cada uma com as suas recordações! Onde fui, pela primeira vez, com 13 anos, partindo do Porto, com um amigo da mesma idade (os tempos de facto mudaram...), numa madrugada de chuva torrencial, para apanhar o "comboio especial" que saía de S. Bento. Festa essa, na antiga FIL, em que tive a "brilhante" ideia de comprar logo no sábado de manhã (antes que esgotassem!...) uma melancia dos campos da Reforma Agrária para trazer de presente para o meu pai, e que carreguei, dolorosa mas orgulhosamente, durante todo o fim de semana.

Ou a primeira Festa que se fez no vale do Jamor e cujo terreno vi, pela primeira vez, na televisão de um hotel em Moscovo (a cores, o que ainda era um sonho em Portugal!), numa reportagem da televisão soviética sobre as jornadas de trabalho de implantação das infraestruturas. Jamor onde, a partir da 3.ª Festa comecei a passar parte das minhas férias, trabalhando na respetiva construção, numa escola de vida de que continuo a usufruir. Não apenas pelas diferentes atividades manuais que fui aprendendo, mas também pela capacidade de organização e, mais tarde, de coordenação de equipas. E, fundamentalmente, pela aprendizagem, e principalmente pela prática, do que é a camaradagem e a fraternidade entre pessoas que comungam de causas comuns. Onde se forjaram amizades que perduram, apesar de muitas vezes, apenas nos revermos anualmente, precisamente na Festa.

Trabalho de construtor que depois passou para o Alto da Ajuda - o mais belo dos terrenos da Festa, com o estuário do Tejo aos pés. Onde recordo o mais memorável concerto a que alguma vez assisti, com Chico Buarque, com dezenas de milhares de vozes a pedir o encore de uma forma original: gritando "O Brasil vencerá!" (que na altura o país irmão ainda vivia sob ditadura). E com Chico Buarque subindo novamente ao palco dizendo, comovido, "É! O Brasil vencerá!" e arrancando para uma inesquecível interpretação de "Cálice". Alto da Ajuda onde, em 1982, em pleno mês de julho, uma chuva diluviana transformou o terreno da Festa num imenso lamaçal, de onde não arredámos pé até darmos as boas-vindas a um sol luminoso que possibilitou a realização do comício, com Dias Lourenço e Álvaro Cunhal, bem como a continuação dos espetáculos, embora em locais diferentes do previsto - numa demonstração de competência organizativa, até no improviso, digna de registo.

Festa que depois passou para Loures, para um terreno de que não guardo saudades, numa saga de "casa às costas" em virtude de os poderes instituídos, a quem a o sucesso da Festa incomodava, levantarem sucessivos obstáculos à utilização dos terrenos.

Até estabilizar no atual terreno, no Seixal, comprado pelo PCP após uma campanha que mobilizou dezenas de milhares de pessoas e que permitiu recolher 150 mil contos (750 mil euros) - e que, soubemo-lo agora, vai ser ampliado.

Onde regresso todos os anos, e onde tenho o gozo de, no restaurante da cidade do Porto, servir, há anos e ao almoço de domingo, francesinhas e tripas à moda do Porto. Cozinhadas por uma equipa onde às veteranas com tantas festas como eu se junta gente nova que, mesmo não sendo militante do PCP, se revê no espírito da Festa e colabora voluntariamente nas diversas tarefas que a tornam possível.

E, percorrendo a Festa e vendo os espetáculos (música de todos os géneros, teatro, cinema, desporto), visitando as feiras do livro e do disco e o pavilhão da Ciência, bem como os diversos pavilhões de partidos e movimentos de outros países, assistindo a debates e exposições de atualidade política, gozando a rica gastronomia das diversas regiões, bem como o seu artesanato, levando a minha filha ao espaço da criança, participando nesse verdadeiro fenómeno que é a dança coletiva ao som da Carvalhesa e, fundamentalmente, vendo o espírito de camaradagem que emana da Festa, é sempre com emoção que sinto, bem sei que com uma certa dose de romantismo, que ali está, numa escala pequena, o Mundo que há quase 40 anos luto por construir.

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