Opinião

O medo

"O desconhecimento ou o receio de perderem o emprego forçava-os a tomar paracetamol e esconder os sintomas da doença, refere Fernanda Santos. São trabalhadores sazonais, alguns deles estrangeiros que vieram trabalhar na época alta, acrescenta a responsável pelos serviços de saúde pública dos cinco concelhos do litoral alentejano".

Este é um excerto de uma notícia do "Público" de 28 de agosto, sobre os 22 casos de covid-19 detetados na zona da Comporta (18 funcionários e 4 moradores) que levaram ao encerramento de dois famosos restaurantes. Estes trabalhadores, que a notícia diz serem "manipuladores de alimentos", vão rodando entre os dois restaurantes e "vivem todos juntos em habitações alugadas pelo proprietário dos restaurantes".

Mais a Norte, ficamos a saber que a Azincon (que teve trabalhadoras infetadas com a covid-19), "Fábrica das Camisas" de Vila do Conde, declarou a insolvência, mandando para o desemprego 133 trabalhadoras. Leio no JN que a empresa não tem praticamente património, na medida em que os equipamentos utilizados na produção e logística tinham sido vendidos a uma empresa em nome do filho dos proprietários (a quem passou a pagar um aluguer pela sua utilização...) - filho esse que, pelo que também leio, é funcionário da Azincon e que, como tal, terá direito a subsídio de desemprego!

Este é o país real que temos, de que muitos fazedores de opinião nos querem distrair. O que demonstra bem as razões pelas quais propagam o medo coletivo que leva muitas pessoas, tantas vezes irracionalmente, a pedir a suspensão da democracia nas suas várias vertentes. Porque dessa maneira é mais fácil repetirem-se estes exemplos de precariedade, falta de condições de trabalho e de falências fraudulentas que estes dois casos evidenciam.

*Engenheiro

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