Opinião

Um novo Aleixo ao retardador

Um novo Aleixo ao retardador

Estive, no passado sábado, nos terrenos onde se situou o bairro de S. Vicente de Paulo. O motivo foi uma concentração de antigos moradores do bairro em protesto por, tendo sido obrigados a sair do mesmo pela Câmara, verem agora a intenção municipal de entregar o terreno a privados sem que a possibilidade do seu regresso seja ponderada.

Recordei, aí, as inúmeras visitas que fiz a este bairro, entre 2001 e 2008 (quando o mesmo ficou totalmente devoluto, à exceção de dois blocos que o protesto dos moradores conseguiu manter de pé). Constituído por 200 habitações, muitas delas casas unifamiliares, o bairro situava-se num terreno junto à Praça da Corujeira e com vistas para o Douro.

O seu processo é parecido com o do Aleixo, numa demonstração de que, no Porto, o poder autárquico se move pela ideia de que as vistas para o rio não devem ser "privilégio" dos "pobres"! Em 2005, Rui Rio deixou de permitir a ocupação das habitações que iam ficando livres no bairro, por falecimento ou transferência para outros bairros dos seus moradores. Isso fez com que diversas casas ficassem devolutas e degradadas, o que causava problemas aos vizinhos (havia casas geminadas e outras com dois pisos). A situação agravou-se com a sua ocupação, a pouco e pouco, por toxicodependentes. O ambiente foi-se degradando, com vários moradores a pedirem para sair do mesmo, numa espiral que acelerava o estado de abandono. Mas com muitos outros a não desistirem e a lutarem para se manterem no bairro em que sempre tinham vivido e que nunca tinha sido foco de problemas.

Rio, tal como fez no Aleixo, foi deixando degradar até já nada se poder fazer, demolindo casas e libertando o terreno para o entregar a privados. No Aleixo a entrega foi imediata. No S. Vicente de Paulo é ao retardador. Porque, após 13 anos de abandono, Rui Moreira vai entregar o terreno do bairro a privados para aí construírem habitação de luxo e outra com rendas ditas "acessíveis" (com a agravante de o privado ainda levar como bónus uns lotes de terrenos municipais nas Antas!). Uma visão em que, no Porto, tudo é negócio e, se queremos atribuir alguma coisa aos mais desfavorecidos, os poderosos têm de ganhar com isso...

Engenheiro

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