Opinião

Há que evoluir culturalmente para a reconstrução nacional

Há que evoluir culturalmente para a reconstrução nacional

Os textos dos grandes pensadores são naturalmente objeto de interpretações dos seus leitores que não poucas vezes se desviam da substância dos seus pensamentos. Arrisco interpretar o (notável) texto de Frei Bento Domingues, publicado no "Público" do passado domingo, dia 2 de julho, sob o título "Nem Lutero, nem Francisco". Importa que seja lido, como aliás o merecem os seus escritos em geral. Diz Frei Bento, cito "...A fórmula Ecclesia semper reformanda é antiga. A Igreja, quando não vive em processo de contínua reforma, deforma-se. (...) Para não envelhecer, é preciso renascer, deixar-se transformar". E, continuo a citar: "O que mais me espanta não são os 500 anos de ausência de Lutero em Portugal. O que me desconsola é a nossa resistência passiva à reforma, muito mais abrangente e global, desencadeada pelo Papa Francisco, o segundo Papa dos tempos modernos, verdadeiramente católico, isto é, de abertura universal". Fim de citação. Eu projeto na dimensão do Mundo global de hoje as preocupações que identifico nestes pensamentos. O caminho da e para a modernidade dos povos, em particular pensando em recuperar os valores sociais da Europa, passa pelo diálogo civilizacional à escala mundial e, dentro da Europa, pelo aproximar das visões do cristianismo, particularmente entre católicos e luteranos, no reformismo que estes últimos encerram.

2. Nós, portugueses, precisamos de evoluir culturalmente no sentido de adotar uma visão e ação reformista, de continuada adaptação aos tempos, antítese da rigidez imobilista que herdamos das conceções corporativas do Estado Novo e que ainda prevalecem entre nós. E precisamos de o fazer particularmente nas instituições públicas, a todos os níveis e em todas as áreas, incluindo as que de mais perto sirvo há 45 anos. Na educação, na ciência e no conhecimento está o futuro, mas o conhecimento hoje só se desenvolve em ambientes multidisciplinares, com organização racional e gestão eficaz, com as partilhas de meios que as tecnologias de hoje facultam. É este o caminho de todos os países desenvolvidos e competitivos do planeta, no que incluo os países do Oriente distante, particularmente a China. Sem esta postura de evolução cultural, o repto do necessário exemplo de reconstrução nacional duradoura, que de forma firme o senhor presidente da República lançou há dois dias, no domingo, em terras de Pedrógão, simplesmente não ocorrerá.

* PROFESSOR CATEDRÁTICO, REITOR DA UNIVERSIDADE DO PORTO

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