Opinião

A Catalunha e a União Europeia

1. O principal objetivo da criação da Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1957, congregando a França, a Alemanha, a Itália e os países do Benelux, foi, em termos políticos latos, a manutenção da Paz e a criação de condições de desenvolvimento económico e social numa Europa dilacerada pela Segunda Grande Guerra Mundial, tendo como linha oferecer alternativa política sólida ao modelo nacionalista percebido como a causa próxima dessa mesma Guerra. A União Europeia de hoje representa a evolução da CEE, tendo, no seu processo evolutivo natural de adaptação aos tempos, vindo a receber novos países, vários deles provenientes da fragmentação do bloco da União Soviética, mas mantendo a linha política supranacional que recusa e se opõe a nacionalismos monolíticos de natureza antidemocrática. Percebe-se pois que a questão do refazer de fronteiras na Europa, agora revisitada por razão do movimento independentista da Catalunha, é antiga e não representa o cerne da discussão.

2. O que é particularmente sensível nos movimentos de mudança política que se observam dentro da União Europeia, seja com objetivos independentistas, seja de mudança de orientação política dos países, é o processo visível de convergência entre impulsos de populismos nacionalistas altamente indesejáveis e objetivos ideológicos de alguns grupos sociais e políticos para derrubar o atual modelo da União, mesmo recorrendo a alianças contranatura de extremos. Foi essa aliança, com esse objetivo ideológico subjacente, que se verificou recentemente na Grécia e é essa conjugação que está a dar alguma força ao processo da Catalunha.

3. Ora, é natural que qualquer mudança do xadrez político da União Europeia que choque com a sua matriz fundamental ou que doutra forma tenha potenciais consequências para a estabilidade da União seja considerada um problema de todos os seus membros. Assim, sendo certo que cada povo ou nação tem o direito a ser dono do seu destino, é também do direito dos outros povos reconhecer ou não reconhecer esses processos políticos e nessa medida apoiá-los ou não. Penso que a Espanha vai ultrapassar esta crise, por decisão própria e com o apoio dos seus parceiros europeus... o que significa, entre outras consequências, que as empresas vão continuar a operar desde a Catalunha... e que o Barcelona vai continuar a poder lutar pelo título de campeão de Espanha!

*PROF. CATEDRÁTICO, REITOR DA UNIV. DO PORTO