Opinião

Intrigas nas Cortes, resistência à mudança

No passado dia 11 de julho abordei nesta mesma coluna o tema, que considero crucial para o desenvolvimento de Portugal, da postura e ação reformista que temos de adotar, de continuada adaptação aos tempos, antítese da rigidez imobilista que herdamos das conceções corporativas do Estado Novo que ainda vão prevalecendo entre nós. Hoje retomo-o, inspirado em duas notícias publicadas no dia 24 de dezembro, há dois dias, véspera de Natal, associadas ao notável discurso do Papa Francisco no Encontro com os Membros da Cúria Romana para apresentação dos votos natalícios, que teve lugar no dia 21 de dezembro, na Sala Clementina do Vaticano. Um discurso, disponível na Internet, cuja leitura recomendo vivamente, no que ele encerra em favor do progresso do Mundo. A primeira dessas notícias foi publicada no JN (página 15) sob o título "Cúria Romana sofre "cancro das intrigas"". Poder-se-ia pensar ser este um título populista. Não é. Corresponde integralmente a uma passagem central do discurso, que inclui muitas outras asserções que deixam claras as dificuldades desta necessária via do reformismo, como seja, ipsis verbis, "Fazer as reformas em Roma é como limpar a Esfinge do Egito com uma escova de dentes". A outra notícia, alargada, vem no P2 do "Público" sob o título "A guerra contra o Papa Francisco", com testemunhos espantosos, como seja a citação, de círculos restritos de oposição, de associarem Sua Santidade a Calígula (Caio César, imperador romano).

As intrigas das Cortes representam uma das faces visíveis da resistência à necessária adaptação das instituições aos tempos, particularmente em instituições seculares. São dificuldades com as quais temos de conviver e que temos de vencer. Estes textos fizeram-me reler no fim de semana um livro antigo, que comprei nos meus tempos britânicos, e que também recomendo: "Porterhouse blue", de Tom Sharpe, publicado em 1974, ainda atual, uma sátira sobre um fictício Colégio de Cambridge, que, sendo cómica, é tudo menos cómica, na forma como no mais fino estilo britânico retrata realidades de comportamentos e de lutas de poder, de resistência à mudança, sem sucesso, no mundo de uma universidade quase milenar. É na medida desse extraordinário sucesso desta universidade que percebemos que o caminho da reforma é o que melhor serve o futuro do Conhecimento e da Humanidade. Voto por este caminho para 2018.

As intrigas das Cortes representam uma das faces visíveis da resistência à necessária adaptação das instituições aos tempos, particularmente em instituições seculares.

PROF. CATEDRÁTICO, REITOR DA U.PORTO