Opinião

O abuso dos "jornais de parede" da era moderna

O abuso dos "jornais de parede" da era moderna

1 O combate à instabilidade social, económica e política que todos sentimos hoje no Ocidente exige a compreensão da evolução do Mundo contemporâneo do pós-Grande Guerra. O modelo político adotado e os avanços da ciência e tecnologia alcançados neste período, especialmente na saúde, nos transportes e nas comunicações digitais, são responsáveis pela melhoria inquestionável da qualidade de vida das populações ocidentais, sentidas nestes mais de 60 anos, mas explicam igualmente dificuldades do presente. Fruto do progresso, o Mundo está "mais pequeno". As civilizações estão mais próximas do que nunca, em "tempo real" em imagem e palavra e a poucas horas físicas. A dificuldade do diálogo civilizacional projeta-se em beligerância. Na Europa, como consequência do domínio da economia sobre a política, assistimos ao recuo do modelo social, com o aumento dos fossos sociais. Face a este declínio sentido, os povos rebelam-se, usando como armas pacíficas a liberdade de expressão, através dos meios disponíveis, e o voto nas urnas. As vicissitudes de processos eleitorais e a fragilidade de soluções governativas resultantes de dispersões de voto suscitam apreensão dos cidadãos que questionam o modelo político.

2. Nesta apreciação entram as incontornáveis redes digitais de hoje, que, sendo meios extraordinários de promoção de comunicação e cooperação, rapidamente se transformaram em poderosas armas de manipulação social, promovendo as pós-verdades, as mentiras e os julgamentos populares. Objeto de muita escrita recente, este fenómeno não representa, em si, nada de novo. Há cinquenta e poucos anos surgiram na China os famosos e igualmente tenebrosos "jornais de parede" de Mao, usados para denunciarem e promoverem a eliminação dos "inimigos da revolução cultural". E essa mesma perversão continuou com o uso massificado do correio eletrónico a partir do fim do século passado.

3. Regressando ao futuro, enfrentemos esta "outra face da medalha", a do uso abusivo destes recursos que irreversivelmente a ciência e tecnologia nos proporcionam. Um fenómeno a ser travado, por razões de dignidade humana e na medida em que promove condições de assaltos totalitários, como já é bem visível um pouco por todo o Ocidente. Temos pois que nos focar no combate global a este abuso... acrescente-se que de dentro das nossas casas para fora.

* PROFESSOR CATEDRÁTICO, REITOR DA UNIVERSIDADE DO PORTO

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