Opinião

Os problemas da Europa e os nossos problemas

Os problemas da Europa e os nossos problemas

1 - Os títulos de primeira página dos jornais deste fim de semana não deixam dúvida sobre a instabilidade europeia e mundial em que estamos a viver, como também deixam claro problemas bem portugueses: "Brexit - Theresa May vai evocar artigo 50 até março de 2017; Hungria leva medo da Europa ao extremo; Deutsche Bank, o gigante em queda ameaça a economia europeia;" e, entre nós, "200 mil casas com TV pirata; Auditores controlam médicos na Urgência durante a madrugada; Ministra da Justiça admite debate sobre delação premiada". Títulos internos quiçá excessivos, mas que tocam claramente em feridas bem conhecidas. Saibamos separar os problemas: os do Mundo, que também são nossos, têm um lugar para serem resolvidos; os nossos, só nós temos de os enfrentar e resolver.

2 - Sobre a Europa percebe-se o ciclo de cerca de 40 anos que caracteriza a sua história. Há 40 anos vivíamos ainda intensamente a "guerra fria". Na Grã-Bretanha, James Callaghan foi vencido pelo seu próprio partido, em 1978, num processo de implosão trabalhista que levou Margaret Thatcher ao poder em 3 de maio de 1979. Seguiu-se a implosão maior, a do modelo soviético, referida simbolicamente à queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. Todos conhecemos o drama humano que sobreveio, no essencial porque a economia sem oposição tomou conta da política do Ocidente. Em consequência, cresceram as escolhas nas urnas de propostas radicais, como cresceram impunemente os excessos verbais e materiais de indivíduos e grupos de tendência eminentemente nacionalista e/ou populista. Reacendeu-se pois a instabilidade. Temos de reencontrar o caminho do progresso social.

3 - Do nosso lado, o diagnóstico está feito de há muito e por muitos. Tem faltado visão, músculo político e muita sensatez racional. Concentremo-nos em ultrapassar o défice relativo de cultura de organização e de responsabilidade social que limitam o nosso desenvolvimento económico e social. Em particular, a nossa impotência judicial mesclada de permissividade social, perante a fuga às responsabilidades sociais, é bem visível, sobrando a solução da fuga para a frente em espiral de aumento de impostos. E não esqueçamos que sem desenvolvimento económico e criação de riqueza, não há distribuição socialmente justa que nos valha.

Do nosso lado, o diagnóstico está feito de há muito e por muitos. Tem faltado visão, músculo político e muita sensatez racional.

* PROFESSOR CATEDRÁTICO, REITOR DA UNIVERSIDADE DO PORTO

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