Opinião

25 de Abril em casa

A Revolução de 25 de Abril é o aniversário mais importante do Portugal moderno. Nenhuma construção política e social consegue almejar a justiça possível se não partir do pressuposto democrático.

Neste aspeto, a 25 de Abril os portugueses com aspiração à justiça e à liberdade fazem anos, não porque tenham nascido em 1974, mas porque então se alcançou essa universalidade irrevogável na consciência de todos.

Dito isto, claro que entendo que devemos cuidar deste aniversário como quem cuida do mais elementar do futuro. Mas isso não implica gestos fanáticos. Como dizia, esta conquista é sobretudo um imperativo de consciência, e o que ela significa é a luta por uma paridade que atribua a todos justiça. Não posso deixar de espantar-me com toda e qualquer intenção de juntar pessoas ou sair à rua a pretexto do 25 de Abril e do 1.º de Maio. Não podemos exigir que os funerais se façam à míngua e abrir exceções para algum tipo de festa.

Juntar pessoas agora é, no mínimo, contradizer tudo quanto se andou a pregar, como se o isolamento fosse bom para os ingénuos e desnecessário para os espertos.

Por definição, todos os gestos inconscientes para celebrar estas duas datas são a sua própria negação. Este é o tempo do fortalecimento de convicções éticas e reiteração de compromissos de cuidado social. Qualquer coisa parecida com descuidar é a contradição absoluta dos ideais que se pretendem lembrar e defender.

Estamos prestes a entrar numa fase seguinte da gestão da pandemia, necessitados de regressar ao trabalho e ao sustento. Neste futuro próximo, a convivência em disciplina, a "etiqueta respiratória", como alguém dizia na televisão, trará um desafio tremendo aos cidadãos que se verão atrapalhados para cumprir, metidos em transportes públicos ou indústrias atoladas. Abeirar esse tempo, em que todos parecemos precisar de voltar a "aprender a respirar", com uma reunião simbólica de pessoas é atrapalhar tudo enviando o sinal errado.

Nestas datas estarei em festa, sim. Não poderia deixar de o fazer, mas com o respeito profundo com que tenho procurado estar: em casa. Muito me frustra que isto não tenha sido imediatamente óbvio para todas as autoridades. O certo é que as pessoas querem ver exemplos de rigor e sem concessões. Só assim haverão de também corresponder.

Este ano, até para leigos, a mensagem Urbi et Orbi do Papa à praça vazia foi mais poderosa do que alguma vez nos lembramos. O Parlamento deve interpretar os sinais. Mantermos a união pode ser feito precisamente por estarem as bancadas vazias. A união que importa é a que respeita escrupulosamente o instante pelo qual passamos.

*Escritor

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