Opinião

A ignorância orgulhosa

A ignorância orgulhosa

Quando estive no Vietname, notei sobretudo o esforço circunspecto, a forma miudinha de trabalhar por cada moeda como se buscassem agulhas num palheiro.

Os vietnamitas são de olhar distante, um pouco ausentes, desafiados por uma pobreza cheia de mágoas, a memória recente de um regime violento e a memória ainda da tremenda Guerra Americana. Na impressionante confusão de Hanói, sobrevivendo às milhares de motorizadas circulando freneticamente, admirei como se obstinavam naquele comércio de cêntimos. Um comércio que dificilmente os levantará a um efetivo bem-estar. Se eu vivesse ali, a ganhar aquilo, ia muito querer sair, tentar um trabalho de maior promessa num país menos boicotado.

A Europa edificou a Pessoa Universal, essa que se faz como espírito inteiro, de profunda ética, conquistada ao conhecimento e sustentada pela razão e pela lucidez. A Europa criou seu cidadão com vocação para o esplendor do Direito, um indivíduo com aptidão cultural para ser justo, ensinado pela ressonância do Iluminismo, consumado nessa admirável fórmula que a França legou ao Mundo. A pessoa europeia, graça máxima do conhecimento, corrompe-se agora. Curiosamente, no auge da informação, desce drasticamente o conhecimento e, com ele, a ética. O orgulho pelo espírito justo é desprezado, o essencial do humanismo relegado para convicções ideológicas. A ignorância orgulhosa ganha terreno, admitida naturalmente pelos ignorantes, que sempre estiveram aí, e tolerada pelos cínicos, o típico contemporâneo.

A pessoa europeia é reduzida ao consumo, periga na condição de cidadã e resume sua inscrição ao que pode, ou não, comprar. Não serve para muito mais. Sabe mal interpretar o tempo, age por reação elementar, acusa uma covardia constante, destitui-se paulatinamente de sensibilidade, desculpa-se a si mesma culpando entidades abstratas numa lógica de conspiração que leva sobretudo à demissão, a recusa de qualquer compromisso. A outrora Pessoa Universal da Europa é hoje uma figura atomizada, perdendo o brio nos grandes feitos históricos, incapaz de ativar o conhecimento deixado nas suas bibliotecas e escolas, cada vez mais próximas de lugares de simples entretenimento.

As temperaturas no interior de um camião-frigorífico vão a menos 25 graus. O ar rarefaz-se, a capacidade de um ser humano resistir a ser ali transportado é diminuta. Em Grays, cidade a leste de Londres, 39 pessoas foram encontradas sem vida no interior de um camião assim, imagina-se que apanhadas numa rede de tráfico humano que leva a anos de literal escravização e redunda quase sempre na prostituição. Quando arriscam a vida, as pessoas que sonham com a Europa não sabem da quase inevitável tragédia que os espera. Sonham, como a Europa sempre sonhou e, exatamente por isso, se tornou símbolo de esperar melhor.

Por que razão agora se torna mais obsceno? Porque assistimos impávidos, como se houvesse culpa em querer escapar à miséria. E porque assistimos impávidos, como se não fôssemos mais capazes de regressar à cidadania e a morte dos miseráveis viesse apenas ao encontro de mais um hábito de consumo, o de consumirmos o terror alheio. Estamos, na verdade, a extinguir nossa identidade. Se não acordarmos, em algum tempo seremos um bicho completamente diferente daquele que teve a possibilidade de se tornar gente.

*ESCRITOR

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