Cidadania impura

A mais importante Páscoa

A mais importante Páscoa

A raiz etimológica da palavra Páscoa é imprecisa, contudo ela deverá referir-se ao êxodo dos hebreus, liderados por Moisés na fuga do Egito a caminho de Canaã.

Nessa alusão, o seu significado haveria de se prender com a ideia de passagem. Isso importa para dizer a mudança de condição na vida de cada pessoa, mas importa sobretudo para anunciar um outro tempo, uma nova era. De algum modo, todas as formulações que possamos adotar para definir a humanidade parecem adiar sua consumação, como se a ideia de humanidade fosse sobretudo uma previsão, uma ansiedade pelo que pode vir.

Ao medirmo-nos como o imenso coletivo de pessoas somos colocados diante do dilema de saber se algum dia encontraremos passagem ou não para a consumação absoluta desta construção ética que tem de ser o projeto humano. Estamos, de algum modo, aguardando pela Páscoa, um mar que abra incrivelmente para a era da digna paridade entre todos.

Que símbolo poderoso é este para nos ser colocado agora. Tanto se conjetura como haverá de ser o Mundo a seguir à pandemia, suportado em alfinetes até à conquista de uma vacina, encostando à cabeça de todos uma roleta-russa. Estamos, por esperança, numa passagem, e o mais que queremos é acreditar que chegaremos ao outro lado e que este esforço foi, afinal, um movimento. Um caminho percorrido para aclarar conceitos, assumir valores, criar um compromisso com alguma redenção do Mundo. Estamos chamados a uma longa Páscoa, esta quietude, este confinamento, precisa de ser uma longa Páscoa, um caminho.

Estou convencido de que todas as religiões preveem o seu Deus para que as pessoas possam ser educadas a acreditar umas nas outras. Com maior ou menor deslumbre pela burocracia ou ritualidade, todas as religiões assentam na alteridade entre os pares a verdadeira forma de corresponder ao Criador. Pois, com ou sem fé, essa é a base de toda a humanidade, a ideia límpida de que estamos aqui uns pelos outros. Apenas uns pelos outros passaremos para uma nova era de muito maior esplendor.

Com ou sem fé, este domingo é símbolo lucipotente de esperança e tem de ser sobretudo abraço solidário aos que perderam alguém, aos que estão em sofrimento, aos que lutam para salvar vidas, aos que nos governam de boa-fé, aos que cumprem o cuidado para que, o mais rápido possível, possamos voltar a tocar nos que agora amamos apartados. Passemos em paz, guardemos a coragem de construir tudo outra vez, exatamente por querermos seguir um caminho que saberá levar-nos a algo mais solidário, porque todos sabemos ser muito mais solidários, assim o queiramos.

Chamados a uma urgente meditação, esta poderá ser a Páscoa mais reveladora das nossas vidas.

Outras Notícias